Goianésia - A Folia de Reis, também conhecida como Companhia de Reis, nasceu da vida simples do campo e dos antigos mutirões de trabalho rural. Mais do que uma manifestação religiosa, a tradição se consolidou como um elo entre gerações, preservando histórias familiares, valores comunitários e a identidade cultural do interior.
Para quem participa, cada acorde da sanfona, do pandeiro e da zabumba carrega lembranças que atravessam o tempo. No passado, os foliões chegavam a cavalo ao cair da tarde, transformando vilas e fazendas em verdadeiros pontos de encontro, marcados por música, fé e celebração coletiva.
Essa vivência acompanha desde cedo a trajetória de Valdivino Ferreira, que nasceu e cresceu imerso na Folia de Reis e no forte vínculo com a cultura popular. Ele recorda com emoção os tempos da infância e juventude no campo.
“Eu fui criado na roça, tocando sanfona nos mutirões que a gente fazia antigamente. Girava folia, montava a cavalo. Quando a gente chegava, lá pelas cinco horas da tarde, já tinha gente afinando violão, outros debaixo da árvore, outros ainda no cavalo. Depois da folia tinha o forró, tudo tocado na sanfona. Eu tocava, minha mãe também, cada um com seu instrumento. Eu era novo na época, mas era uma coisa muito bonita”, relembra.
Fé que atravessa gerações
Inspirados pela jornada dos Três Reis Magos, os foliões seguem movidos por uma fé profunda, considerada milagrosa por muitos devotos. Mesmo com o passar dos anos e as transformações sociais, a tradição permanece viva no coração de quem aguarda, ano após ano, o retorno dos cânticos e das visitas às casas.
O ritual fortalece laços comunitários, renova a irmandade entre os participantes e mantém acesa a essência da Folia. É o que relata Divino Martins, respondão da Companhia de Reis, papel fundamental na condução dos cânticos.
“É uma devoção muito grande que nós temos. Somos muito devotos de Santos Reis, porque é muito milagroso. Para nós, sair com a folia, cantar, é uma irmandade, uma coisa linda demais”, afirma.
Divino também destaca o sentimento coletivo que envolve a tradição. “Tinha o embaixador, tinha a resposta, eu cantava junto com meu irmão. Todo mundo gosta, todo mundo participa. Para nós é uma satisfação enorme ter essa folia para cantar todo ano. A gente faz com carinho, faz bem feito. Graças a Deus”, completa.
Vozes, memória e continuidade
Cada Companhia de Reis é conduzida por embaixadores, responsáveis por organizar a complexa harmonia das vozes, que se distribuem do primeiro ao quinto canto. Trata-se de uma estrutura tradicional, transmitida oralmente, que exige conhecimento, sensibilidade e compromisso com a tradição.
A Folia também convive com a saudade. Quando um respondão ou integrante parte, o grupo sente o silêncio deixado pela ausência. Ainda assim, a caminhada segue sustentada pela memória dos versos, pelo respeito aos que vieram antes e pelo compromisso coletivo de manter a bandeira de Reis em giro.
Mais do que uma celebração religiosa, a Folia de Reis permanece como símbolo de fé, cultura e resistência, preservando uma herança que continua a unir comunidades e a contar, em versos e cantos, a história do povo do interior.




