Hoje, apenas 20,6% dos brasileiros concluíram uma graduação

Goianésia-A ampliação da oferta de cursos superiores e técnicos, a chegada de novas instituições de ensino e investimentos voltados à qualificação profissional têm alterado o cenário educacional de Goianésia nos últimos anos. O município reúne hoje universidades, escolas técnicas e centros de capacitação que ampliam o acesso à formação. Ao mesmo tempo, surgem discussões sobre os próximos passos necessários para consolidar a cidade como uma referência regional em educação e inovação.

Em entrevista exclusiva à RVC FM, o reitor do Centro Universitário Evangélico de Goianésia (UNIEGO), José Mateus dos Santos, fez uma análise da evolução da educação no município e apontou desafios para que Goianésia avance também na pesquisa científica, na pós-graduação e na formação de mão de obra especializada.

Segundo José Mateus, a história da educação em Goianésia pode ser dividida em diferentes fases. Ele relembrou que, durante muitos anos, estudantes precisavam deixar a cidade para concluir os estudos.

"No primeiro momento, a escola atendia basicamente à alfabetização e ao ensino fundamental. Depois, muitos alunos precisavam ir para Ceres, Anápolis ou Goiânia para cursar o ensino médio. Em seguida, veio a fase em que Goianésia exportava universitários. Chegamos a ter sete ônibus saindo diariamente para Anápolis e outras cidades, levando estudantes para o ensino superior."

Com a implantação de instituições de ensino superior no município e o fortalecimento da educação básica e técnica, esse cenário começou a mudar. Para o reitor, um marco recente desse processo foi a realização da primeira defesa de mestrado de um curso desenvolvido integralmente em Goianésia e reconhecido pelos órgãos reguladores. "Isso demonstra claramente a evolução que tivemos ao longo dessa trajetória."

Embora considere que a cidade vive um novo momento, José Mateus afirma que ainda existe um longo caminho até que Goianésia alcance autonomia completa em todos os níveis da educação. Ele chamou atenção para os baixos índices nacionais de formação acadêmica em níveis mais elevados.

"Hoje, apenas 20,6% dos brasileiros concluíram uma graduação. Quando falamos de pós-graduação lato sensu, esse percentual cai para 6%. Mestres representam apenas 0,8% da população, e doutores, somente 0,4%."

Na avaliação do reitor, esse cenário afeta diretamente a capacidade do país de produzir conhecimento e desenvolver novas tecnologias.

"O prejuízo está na pesquisa. São os mestrados e doutorados que impulsionam os grandes países. Novos produtos surgem da pesquisa. No Brasil, estamos muito atrás quando falamos em produção científica, e isso nos mantém como grandes produtores de commodities, sem agregar tanto valor ao que produzimos."

Continuidade das políticas públicas

Durante a entrevista, José Mateus também relacionou o avanço da educação à necessidade de políticas públicas permanentes.

"As políticas de educação no Brasil acabam sendo muito utilizadas como políticas eleitoreiras. Quando uma iniciativa está dando certo, muitas vezes ela é interrompida na gestão seguinte. Falta continuidade nos incentivos municipais, estaduais e federais."

Ele citou ainda a redução de bolsas de pesquisa como um dos fatores que dificultam a formação de pesquisadores.

"Quantos pesquisadores brasileiros acabam deixando o país porque encontram incentivo em outros lugares? Isso prejudica diretamente o desenvolvimento científico nacional."

Educação como estratégia de desenvolvimento

Para o reitor, investir em educação produz reflexos que vão além das salas de aula e interfere diretamente na economia e na geração de oportunidades.

"Desde a pré-escola até o doutorado, a educação forma pessoas capazes de transformar conhecimento em negócios, inovação e desenvolvimento. O Brasil também está atrás no número de patentes, e isso está diretamente ligado ao investimento em educação."

José Mateus defendeu que dois aspectos poderiam provocar mudanças profundas no país.

"Se tivéssemos uma educação de qualidade, garantiríamos melhor interpretação de texto e maior consciência sobre direitos e deveres. Essas duas questões mudariam radicalmente o Brasil."

Goianésia caminha para se tornar referência

Ao avaliar a posição do município no cenário regional, o reitor considera que Goianésia está em processo de consolidação, mas ainda não pode ser considerada um polo educacional plenamente estruturado.

"Eu penso que estamos caminhando para isso. Goianésia só será realmente um polo quando as instituições e o poder público estiverem completamente engajados nesse projeto."

Ele observa que a chegada do Agrocolégio, da Escola SESI/SENAI, da Unidade Avançada de Capacitação (UAC) do Senar e a expansão das instituições de ensino superior criaram uma base importante, mas defende maior integração entre todos os envolvidos.

"É preciso que o Legislativo produza políticas educacionais efetivas, que o Executivo faça um diagnóstico completo da educação e também seja parceiro do ensino superior, facilitando o acesso da população à graduação, ao mestrado e ao doutorado."

Integração entre educação e setor produtivo

Na avaliação do reitor, Goianésia reúne condições para se tornar uma referência nacional na formação voltada ao agronegócio, mas isso exige planejamento conjunto entre instituições de ensino, empresas e poder público.

"Hoje, Goianésia tem tudo para se transformar em referência nos cursos ligados ao agronegócio. Temos o Agrocolégio, cursos das ciências agrárias e outras estruturas. O que falta agora é integrar tudo isso para formar um verdadeiro centro de excelência."

Ele acrescenta que a qualificação precisa estar conectada às necessidades do mercado de trabalho.

"Essas escolas não podem funcionar como ilhas. Todo esse processo precisa estar ligado diretamente ao setor produtivo para que o profissional formado aqui permaneça na região, impulsione a economia e ocupe as vagas que hoje, muitas vezes, precisam ser preenchidas por profissionais vindos de outros estados."

Outro ponto abordado durante a entrevista foi a dificuldade para encontrar docentes com titulação de mestrado e doutorado. Segundo José Mateus, atualmente o UNIEGO busca professores em outros estados e, paralelamente, investe na qualificação do próprio corpo docente.

"Hoje buscamos doutores no Paraná, em São Paulo e em outras regiões. Ao mesmo tempo, firmamos parcerias com universidades para formar nossos professores."

Entre essas iniciativas está a cooperação com a Universidade Federal de Goiás (UFG), voltada à pesquisa e à formação acadêmica.

"Hoje temos professores cursando doutorado e pós-doutorado. Como resultado desse trabalho, nosso curso de Direito passou a ter um corpo docente formado integralmente por mestres e doutores."

A educação como eixo do futuro de Goianésia

Ao recordar a trajetória educacional do município, José Mateus atribui a transformação iniciada nas últimas décadas ao fortalecimento das instituições de ensino superior instaladas na cidade.

Segundo ele, a implantação da então Faculdade Evangélica de Goianésia, atual UNIEGO, reduziu o fluxo de estudantes que precisavam se deslocar diariamente para outras cidades, enquanto a Universidade Estadual de Goiás contribuiu para a formação de professores da rede pública. Mais recentemente, a chegada do curso de Medicina da UniRV e a expansão da educação técnica ampliaram ainda mais esse processo.

"O caminho está sendo construído. Se conseguirmos integrar educação, pesquisa, setor produtivo e políticas públicas, Goianésia poderá não apenas se consolidar como polo educacional, mas também como um polo tecnológico, capaz de gerar inovação, empregos, desenvolvimento econômico e mais oportunidades para a população."