Goianésia-A correria do cotidiano, as incertezas econômicas, o excesso de informações e as transformações sociais dos últimos anos têm contribuído para um cenário cada vez mais desafiador para a saúde mental. Embora a ansiedade seja uma reação natural do organismo diante de situações de pressão ou expectativa, especialistas alertam que ela pode se tornar um problema de saúde quando passa a provocar sofrimento constante e prejuízos na rotina.
Em entrevista exclusiva à RVC FM, no quadro, a psicóloga e neuropsicóloga Julia Pena de Siqueira explicou que sentir ansiedade em determinados momentos da vida é algo esperado e, muitas vezes, necessário para a adaptação diante de desafios.
“A ansiedade normal é como se fosse um mecanismo de defesa, que é passageiro e proporcional aos desafios da vida. Por exemplo, quando você vai fazer uma prova, participar de uma entrevista ou começar algo novo. Ela não é incapacitante. Pelo contrário, funciona como um alerta que prepara a gente para sobreviver e enfrentar esse desafio.”
Segundo a especialista, a preocupação passa a exigir atenção quando deixa de ser temporária e começa a afetar diferentes áreas da vida.
“A ansiedade patológica já é mais crônica, não é passageira. É desproporcional ao perigo que a pessoa está enfrentando e causa sofrimento, prejudicando a vida social, profissional e pessoal. Ela pode surgir sem um motivo maior, por um gatilho mínimo, e gerar reações físicas e emocionais exacerbadas.”
Brasil lidera ranking mundial de ansiedade
O país aparece há anos entre os mais afetados pelos transtornos de ansiedade. Além do impacto individual, o problema também tem reflexos econômicos e profissionais.
Durante a entrevista, Julia citou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Desde 2019, o Brasil foi considerado o país com maior índice de ansiedade no mundo. A média de casos no Brasil gira em torno de 9% da população, enquanto no restante do mundo é de cerca de 4%.”
Ela observa que o quadro tem relação com uma combinação de fatores sociais e econômicos.
“A instabilidade financeira, a preocupação constante com dívidas, o desemprego e a elevada desigualdade social contribuem para isso. Além disso, existe a insegurança urbana e também os efeitos deixados pela pandemia, como o medo relacionado à saúde e o isolamento social.”
Os reflexos aparecem diretamente no mercado de trabalho. A profissional lembra que os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento de trabalhadores brasileiros.
“A maior parte dos afastamentos por transtornos mentais no trabalho ocorre por causa dos transtornos de ansiedade e da depressão.”
Sintomas variam conforme a idade
As manifestações podem ser diferentes entre crianças, adolescentes e adultos. Em muitos casos, os sinais não são imediatamente associados ao transtorno. De acordo com a neuropsicóloga, crianças costumam apresentar alterações de comportamento e sintomas físicos.
“Crianças e adolescentes expressam ansiedade por meio de irritabilidade e dores físicas sem causa aparente, como dores de barriga, náuseas e dores de cabeça. Também podem apresentar queda no rendimento escolar, dificuldade de concentração e apego excessivo aos pais.”
Na adolescência, período marcado por mudanças emocionais e sociais, o sofrimento pode surgir de diferentes formas.
“Há uma preocupação extrema com o futuro, insegurança com a própria imagem, sensibilidade à crítica, sensação de incapacidade, comportamento de evitação, isolamento social e até explosões de raiva e agressividade.”
Entre os adultos, os sinais mais frequentes envolvem excesso de preocupações e alterações físicas.
“Os sintomas mais clássicos são pensamentos acelerados, excesso de preocupações, pensamentos catastróficos, dificuldade de foco e memória, medo de perder o controle, além de palpitações, falta de ar, tontura, suor frio, tremores e insônia.”
Como agir durante uma crise
Existem estratégias que podem ajudar a reduzir os sintomas em momentos de crise. A especialista explica que exercícios respiratórios são ferramentas simples e eficazes.
“Uma técnica é inspirar por quatro segundos, reter o ar por quatro segundos, soltar por quatro segundos e permanecer quatro segundos sem ar. Outra é expirar no dobro do tempo da inspiração. Essas técnicas ajudam bastante no relaxamento.”
Direcionar a atenção para o momento presente também pode auxiliar no controle da ansiedade.
“Na ansiedade, a pessoa fica muito preocupada com o futuro. Então, tentar voltar para o agora, prestar atenção ao ambiente e à própria respiração pode ajudar muito. A atividade física libera neurotransmissores que trazem sensação de bem-estar. Já o sono reorganiza as memórias, as emoções e as experiências vividas durante o dia.”
Redes sociais e excesso de estímulos
O crescimento do uso de dispositivos eletrônicos tem despertado preocupação entre profissionais da área. Estudos apontam uma relação entre o aumento do tempo de tela e o crescimento dos casos de ansiedade, especialmente entre os mais jovens.
Segundo Julia Pena, a dinâmica das redes sociais estimula mecanismos cerebrais ligados à recompensa imediata.
“Receber likes e estímulos o tempo inteiro faz com que a gente libere dopamina, que traz sensação de prazer. O cérebro acaba se acostumando com esses picos rápidos e passa a buscar cada vez mais esse tipo de estímulo.”
Outro aspecto citado por ela é a comparação constante com a vida de outras pessoas.
“Às vezes, a pessoa vê outras vidas aparentemente perfeitas e acaba se sentindo inadequada ou com a autoestima mais baixa.”
A especialista também menciona a chamada síndrome FOMO, sigla em inglês para “medo de ficar de fora”.
“A pessoa fica com receio de não acompanhar o que está acontecendo e de perder alguma informação importante. Isso gera um estado constante de alerta.”
Uma reação comum entre pessoas ansiosas é fugir de situações que provocam desconforto. Embora isso gere alívio momentâneo, a estratégia tende a produzir o efeito contrário ao longo do tempo.
“A evitação traz um alívio imediato, mas a tendência é que a ansiedade seja mantida ou até aumente. Quando a pessoa enfrenta, aos poucos, aquilo que gera medo, percebe que consegue lidar com a situação e desenvolve mais autoconfiança.”
Quando procurar ajuda
A busca por acompanhamento especializado deve ocorrer sempre que os sintomas deixarem de ser passageiros e passarem a comprometer a rotina.
“É muito importante procurar ajuda profissional quando esses sintomas perduram e estão causando prejuízos na área social, escolar ou profissional, além de trazer sofrimento para a pessoa.”
A psicóloga destaca que o tratamento adequado pode melhorar significativamente a qualidade de vida e evitar o agravamento dos sintomas. O acompanhamento pode envolver psicoterapia e, em alguns casos, avaliação psiquiátrica, conforme a necessidade de cada paciente.




