Trajetória retrata os desafios enfrentados por pequenos empreendedores

Goianésia-Empreender no Brasil costuma ser uma jornada marcada por desafios, especialmente para quem inicia sem capital, enfrentando dívidas e incertezas. Em meio a um cenário em que milhares de pequenos negócios encerram as atividades nos primeiros anos de funcionamento, algumas histórias se destacam pela capacidade de transformar dificuldades em oportunidades.

Em Goianésia, a trajetória do Churrasco do Zé nasceu justamente em um dos momentos mais delicados da vida de seus proprietários. Antes de se tornar uma das referências gastronômicas da cidade, o restaurante surgiu em meio ao desemprego, às contas acumuladas e à necessidade de recomeçar após o fracasso de um empreendimento anterior.

O recomeço após a crise

Em 2018, José Ribeiro e a esposa, Gricélia Maria de Medeiros, viviam um período de instabilidade financeira. Depois de investir em um negócio que não prosperou, a família precisou encontrar uma nova forma de sustento.

“Montamos um outro estabelecimento na cidade, não deu certo. Fiquei um ano e seis meses desempregado, sem nenhum tipo de salário”, relembra José.

Foi durante uma conversa com um amigo da família, o contador Odair Araújo, que surgiu a ideia de montar um pequeno negócio voltado para aquilo que José já fazia com frequência: assar carne em confraternizações e eventos particulares.

“Ele falou para mim: ‘Já que você gosta tanto de assar carne nas casas de residência, por que você não monta um carrinho de espetinho para você na rua?’. Eu achei a ideia boa, mas a primeira coisa que pensei foi: cadê o dinheiro? Não tinha dinheiro.”

Sem recursos para investir, o casal decidiu começar com o que tinha disponível. A falta de dinheiro exigiu improvisação. O que seria um obstáculo acabou se transformando em uma demonstração de persistência.

José conta que aproveitou materiais descartados para construir praticamente toda a estrutura inicial do restaurante. “Eu tinha algumas banquetas antigas guardadas e fui juntando as mobílias. Passei três meses fazendo cadeira e mesa de pallet. Juntava material nas lojas de construção, carregava tudo na moto, levava para casa e desmontava.”

A economia chegava aos mínimos detalhes. “Não tinha vez que não tinha dinheiro para comprar nem os pregos. Eu tirava os pregos de outros pallets e repregava. Levei 90 dias fazendo isso. Eu não tinha experiência nenhuma com martelo e serrote.”

Cada mesa montada representava mais uma etapa vencida em direção ao sonho de ter um negócio próprio.

Quando as portas finalmente foram abertas, surgiu um novo desafio: conquistar a confiança dos consumidores. Os primeiros meses foram marcados por movimento reduzido e muita apreensão. Em diversas noites, a expectativa de receber clientes não se confirmava.

“Eu acendia a churrasqueira às nove horas da noite e, muitas vezes, ela ficava apagada. Porque, se eu gastasse aquele carvão, como faria depois? Eu não tinha outro para repor.”

A situação chegou a render cenas que hoje são lembradas pela família. “Meu genro ia para lá com a minha filha, sentava na mesa e colocava uma garrafa vazia para fingir que tinha cliente. Mas não tinha cliente, não.”

A força da parceria familiar

Enquanto José assumia a churrasqueira, Gricélia dividia seu tempo entre o emprego, a cozinha do restaurante e os cuidados com a família. Ela lembra que a união do casal foi fundamental para atravessar os momentos mais difíceis.

“É a nossa cara. É ele na churrasqueira e eu na cozinha. A gente sempre esteve presente diante de tudo isso, mas sem esquecer do principal, que é Deus. Financeiro é algo muito complicado. Quando vem a dificuldade financeira, muitas vezes, vêm também dificuldades familiares. Mas a gente sempre se manteve unido.”

O ponto de virada aconteceu de forma inesperada. Em uma visita ao restaurante, a influenciadora digital Nágella Lopes decidiu compartilhar espontaneamente a experiência que teve no local. O conteúdo publicado nas redes sociais alcançou milhares de pessoas e levou o nome do Churrasco do Zé para além dos clientes habituais.

“Eu achei o ambiente muito aconchegante. Lembro das mesas de pallet, da decoração simples e acolhedora. Quando chegou a picanha, fiquei encantada com a apresentação e com o sabor.”

Sem qualquer parceria comercial ou solicitação do estabelecimento, ela publicou sua opinião. “Eu gravei um vídeo e falei: ‘Gente, a melhor picanha que eu comi na minha vida’. Foi porque eu realmente gostei do atendimento e da comida.”

De restaurante vazio à fila de espera

Poucos dias após a repercussão nas redes sociais, a realidade do negócio mudou completamente. “Começou a parar carro do outro lado da rua. Dois, três, quatro, cinco carros. As pessoas foram chegando e já não tinha mais espaço”, relata José.

Pela primeira vez, o problema deixou de ser a falta de clientes. “Eu pensei: olha só para você ver como é. Antes eu não tinha cliente. De repente, comecei a perder cliente porque não tinha como acomodar todo mundo.”

O crescimento acelerado levou a família a procurar um novo espaço para expandir as operações. Depois de conquistar estabilidade, o restaurante enfrentou outro desafio inesperado: a pandemia da Covid-19. O período trouxe incertezas para milhares de empresas brasileiras, especialmente para pequenos negócios ligados ao setor de alimentação.

José acredita que o momento de expansão vivido anteriormente foi decisivo para a sobrevivência da empresa. “Se a pandemia tivesse acontecido seis meses antes, eu acho que o Churrasco do Zé não teria sobrevivido.”

Apesar das dificuldades, o restaurante conseguiu atravessar a crise e retomou o crescimento nos anos seguintes.

A busca por gestão e profissionalização

Com a expansão do negócio, surgiram novas responsabilidades. Além da qualidade dos produtos e do atendimento, tornou-se necessário investir em gestão, planejamento e controle financeiro.

Foi nesse contexto que Gricélia passou a participar de cursos, consultorias e programas oferecidos pelo Sebrae. “Hoje a gente pensa diferente. Tem outras possibilidades de melhorar. Agora mesmo, estamos tendo acompanhamento financeiro do Sebrae. Estou sempre participando de alguma capacitação.”

Para ela, buscar conhecimento passou a ser uma necessidade permanente. “O mercado está difícil, o cenário econômico também, mas a gente precisa continuar buscando. Porque, se não buscar, fica para trás.”

Conhecimento como ferramenta de crescimento

Para a analista do Sebrae Goiás, Flávia Santos, histórias como a do Churrasco do Zé mostram que o crescimento sustentável depende tanto da dedicação quanto da capacitação. Segundo ela, a preparação técnica contribui diretamente para a sobrevivência dos pequenos negócios.

“A capacitação permite que o empreendedor desenvolva habilidades de gestão, finanças, marketing e atendimento ao cliente, aumentando suas chances de sucesso.”

Uma história que inspira outros empreendedores

As mesas de pallet já não fazem parte da estrutura atual do restaurante, mas continuam representando um período que a família jamais esqueceu. Cada prego reaproveitado, cada noite sem clientes e cada dificuldade enfrentada ajudaram a construir uma trajetória que hoje inspira outros empreendedores.

Consolidado como uma das referências gastronômicas de Goianésia e da região, o Churrasco do Zé demonstra que grandes negócios nem sempre começam com grandes investimentos. Muitas vezes, eles nascem da necessidade de recomeçar, da união familiar e da disposição de seguir em frente, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.

Em um país onde milhões de pequenos empreendedores enfrentam desafios semelhantes todos os dias, a história da família Ribeiro mostra que persistência, trabalho e aprendizado contínuo podem transformar um sonho simples em uma empresa capaz de gerar empregos, movimentar a economia local e deixar sua marca na comunidade.