Goianésia - Com a chegada do período de estiagem no Vale do São Patrício, o aumento do risco de incêndios ambientais volta a preocupar autoridades e equipes de emergência. A combinação entre vegetação seca, baixa umidade relativa do ar e temperaturas elevadas cria condições favoráveis para a rápida propagação do fogo, tanto em áreas urbanas quanto rurais.
Em entrevista exclusiva à RVC FM, o comandante do 18º Batalhão Bombeiro Militar de Goianésia, tenente-coronel Ary Dutra, alertou que os primeiros sinais do agravamento da situação já estão sendo observados neste início de junho. Segundo ele, embora ocorrências esporádicas sejam registradas ao longo do ano, o período seco favorece o aumento significativo dos incêndios ambientais.
"O incêndio só acontece porque alguém o provocou. Cerca de 98% das ocorrências têm origem na ação humana. Casos de origem natural são extremamente raros e não representam a realidade da nossa região", destacou.
Fumaça afeta a saúde da população e pode atingir residências
De acordo com o comandante, um dos principais impactos das queimadas ocorre dentro das próprias residências. O Corpo de Bombeiros recebe, todos os anos, dezenas de chamados relacionados à fumaça e à fuligem que invadem casas durante o período da seca.
O problema afeta principalmente crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias, além de comprometer a qualidade de vida da população.
Ary Dutra ressaltou que o fogo também representa risco direto ao patrimônio, podendo atingir moradias, estabelecimentos comerciais e estruturas públicas.
Na noite de segunda-feira (1º) uma ocorrência mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros após um incêndio atingir um lote localizado nas proximidades da Rua 27 com a Rua 34, em Goianésia. Segundo relatos de moradores, uma pessoa teria ateado fogo no local e deixado a área. As chamas consumiram galhos secos, madeira e entulhos, alcançando grandes proporções e gerando preocupação entre vizinhos devido ao risco de atingir residências próximas.
Incêndios já causaram prejuízos expressivos na cidade
Durante a entrevista, o comandante relembrou uma ocorrência registrada no ano passado na região do Bairro Negrinho Carrilho, onde um incêndio iniciado em um terreno baldio atingiu uma loja de materiais de construção.
Segundo ele, o estabelecimento armazenava produtos altamente inflamáveis, como tintas e solventes, o que contribuiu para a rápida propagação das chamas e provocou prejuízos significativos.
Além desse caso, também foram registradas ocorrências em depósitos de materiais recicláveis, onde incêndios iniciados na vegetação se espalharam para áreas de armazenamento.
Mais de 200 atendimentos foram realizados em 2024
O levantamento do Corpo de Bombeiros mostra a dimensão do problema enfrentado pelo município.
Somente no ano passado, a corporação realizou 202 atendimentos relacionados a incêndios em vegetação na área urbana de Goianésia. As ocorrências foram registradas em terrenos baldios, parques, áreas verdes e espaços de preservação ambiental.
Entre os locais mais afetados estão regiões como o Parque das Palmeiras, o Parque Negrinho Carrilho e diversos terrenos sem manutenção espalhados pela cidade.
Crimes ambientais podem resultar em responsabilização criminal
O comandante também alertou que provocar queimadas constitui crime e pode resultar em responsabilização criminal.
Segundo ele, além da legislação ambiental, a prática pode configurar o crime de incêndio. Casos suspeitos têm sido acompanhados pelas forças de segurança, que atuam na identificação dos responsáveis.
Ary Dutra citou como exemplo uma ocorrência registrada próximo ao distrito de Assunção de Goiás, às margens da BR-080, onde uma pessoa foi presa em flagrante pela Polícia Civil enquanto ateava fogo na vegetação.
"Os órgãos de segurança estão atentos. As pessoas estão sendo investigadas e responsabilizadas. Isso é fundamental para combater esse tipo de prática", afirmou.
Impactos ambientais vão além da destruição da vegetação
Além dos prejuízos à saúde humana e ao patrimônio, as queimadas provocam danos severos ao meio ambiente.
O fogo destrói áreas de vegetação nativa, compromete a biodiversidade, provoca a morte de animais silvestres e interfere no equilíbrio ecológico.
Segundo o comandante, outro reflexo observado durante a estiagem é o aumento das ocorrências envolvendo animais silvestres.
Com a destruição dos habitats naturais, muitos animais acabam migrando para áreas urbanas em busca de abrigo e alimento, elevando também o número de acidentes em rodovias.
Uma das ocorrências mais complexas enfrentadas pela corporação ocorreu na região do Assentamento Itajá, próximo a Natinópolis. O incêndio durou vários dias, exigiu reforço operacional e mobilizou equipes em diversas frentes de combate para impedir que as chamas atingissem novas propriedades rurais.
Queimada controlada exige autorização ambiental
Apesar da proibição das queimadas irregulares, existe a possibilidade de realização da chamada queima controlada, desde que autorizada previamente pelos órgãos ambientais competentes.
Ary Dutra explicou que o procedimento exige apresentação de projeto técnico, monitoramento da atividade e adoção de medidas de segurança para evitar que o fogo saia do controle.
Recentemente, um produtor rural da região de Vila Propício recebeu autorização da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) para realizar uma queima controlada dentro dos critérios legais estabelecidos.
Bombeiros intensificam ações preventivas
Com o início da temporada seca, o Corpo de Bombeiros também ampliou o trabalho preventivo em áreas consideradas críticas.
Equipes da corporação realizaram visitas técnicas em regiões que historicamente registram grande número de ocorrências, como o entorno da Policlínica, a entrada do Jardim Esperança, a região da Escola Magnólia Protásio, o Morro do Cruzeiro e o Morro da Ema.
Durante as inspeções, foram identificados lotes com vegetação alta, acúmulo de lixo e materiais inflamáveis. Relatórios foram encaminhados à Secretaria Municipal de Meio Ambiente para adoção das providências necessárias.
Segundo o comandante, a manutenção dos terrenos baldios será uma das principais medidas para reduzir os riscos nos próximos meses.




