Goianésia-A discussão sobre as consequências de um dos maiores acidentes radiológicos do mundo voltou ao centro do debate em Goianésia com a realização da mesa redonda “As Vozes que Resistem ao Silêncio”. O encontro reuniu vítimas diretas, estudantes e a comunidade, com o objetivo de ampliar o diálogo sobre os efeitos que ainda impactam a vida de dezenas de pessoas, quase quatro décadas após o ocorrido.
Relatos marcam reencontro com a memória
Durante o evento, histórias pessoais deram o tom das discussões. Em entrevista exclusiva à RVC FM, Luiza Odete, uma das vítimas diretas do acidente, compartilhou lembranças do período em que foi afetada pela contaminação.
“Muitas lembranças tristes, porque a gente tem uma vida, assim, mais ou menos hoje em dia. Antes, a gente levava a vida sem preocupação com o nosso futuro, e tudo isso aconteceu. A parte mais triste para mim foi quando eu me separei dos meus quatro filhos. Na época, eu tinha 28 anos, quatro filhos, e foram todos contaminados, muito contaminados, mas, graças a Deus, eu não perdi nenhum. Eu sou um milagre.”
Os depoimentos evidenciam como o episódio ultrapassou o impacto imediato e passou a fazer parte da trajetória de vida das famílias atingidas.
Dificuldades no acesso a tratamento
A realidade enfrentada por quem convive com as sequelas também foi abordada durante a entrevista. Luiza relatou obstáculos no acesso a cuidados básicos. “O que a gente quer é melhoria para nós. A gente quer assistência médica, assistência com medicamentos, o que a gente não tem. A gente sai de lá com a receita na mão e sem condições de comprar o medicamento.”
Além da questão dos medicamentos, ela mencionou limitações estruturais no atendimento, apontando falhas em serviços considerados essenciais.
Associação enfrenta desafios para atender vítimas
A situação também foi detalhada por Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, ao descrever o cenário enfrentado pela entidade.
“Hoje é uma batalha injusta, porque o poder público nos tirou os remédios, tirou o transporte. O salário, até hoje, ainda está em 954 reais.”
Ele explicou que a associação tem assumido demandas que deveriam ser atendidas por políticas públicas, o que tem gerado dificuldades para manter o suporte necessário.
Mobilização para garantir o básico
Marcelo relatou como a busca por recursos tem sido constante.
“Quando chega um paciente com a receita na mão, esse presidente pega a receita e pede ajuda para os amigos, os parentes, os conhecidos, para poder fazer uma vaquinha e comprar esses remédios.”
Segundo ele, a realidade financeira dos atingidos agrava o cenário, dificultando o acesso à alimentação, moradia e tratamento adequado.
Sobrevivência e limitações no dia a dia
Donizeth Rodrigues de Oliveira, também vítima direta, descreveu as condições enfrentadas atualmente.
“Hoje nós somos sobreviventes, nós vivemos na graça de Deus, porque, na verdade, nós temos um salário em que falta tudo: falta dinheiro, falta medicamento, falta comida, falta o básico.”
Ele relatou problemas de saúde recorrentes e a necessidade constante de medicação, o que impacta diretamente sua capacidade de trabalho e sustento.
Custos e dependência de ajuda
O entrevistado também mencionou as dificuldades após atendimentos médicos.
“Quando a gente sai do hospital, a gente não tem aonde recorrer, tem que fazer empréstimo. Aí, o que ganha já é pouco, fica menos ainda.”
A dependência de doações e empréstimos aparece como uma alternativa frequente para lidar com despesas básicas e tratamentos.
Papel da universidade no debate
A iniciativa de promover o encontro partiu do Centro Universitário Evangélico de Goianésia (UniEGO), que buscou aproximar a comunidade acadêmica da temática. O reitor José Mateus comentou a proposta da instituição.
“A busca é incessante para que, de fato, temáticas importantes, que tenham alcance acadêmico, tenham também alcance social. Isso está no nosso radar.”
Ele também abordou a necessidade de ampliar o olhar sobre o acidente e suas consequências.
Reflexão e visibilidade social
Ao comentar o contexto atual, José Mateus apontou a necessidade de atenção contínua às vítimas.
“Acredito que, até hoje, já existiu muita negligência em relação a esse acidente, principalmente com as vítimas, e é necessário que a gente faça uma grita em nome deles, para que possam, realmente, ter dignidade”, concluiu.




