Presidente da associação de produtores explica desafios da atividade

Goianésia-A produção de borracha natural segue como uma atividade estratégica para a economia rural em diversas regiões do Brasil. Em estados como Goiás e Tocantins, o cultivo da seringueira tem impulsionado a geração de empregos, fortalecido a renda no campo e contribuído para práticas agrícolas associadas à sustentabilidade ambiental. O desempenho da atividade, no entanto, depende de planejamento técnico, organização do trabalho e adaptação constante às condições do mercado.

Durante entrevista à RVC FM, o presidente da Associação de Produtores de Borracha Natural de Goiás e Tocantins, José Fernando, afirmou que a região se consolidou como referência no setor graças ao investimento em tecnologia e à qualificação dos produtores.

“Hoje Goiás é referência não apenas no Brasil, mas no cenário internacional em produtividade, tecnologia e gestão de seringais. Esse resultado vem do trabalho desenvolvido desde a implantação das primeiras áreas e da participação ativa dos produtores em eventos técnicos e capacitações”, afirmou.

Implantação exige investimento e planejamento

Apesar do potencial econômico, o cultivo da seringueira exige planejamento de longo prazo. O retorno financeiro ocorre somente anos após o plantio, o que demanda estrutura financeira adequada e acesso a crédito rural.

“Em Goiás conseguimos reduzir esse prazo com o uso da irrigação por gotejamento. Em alguns casos, os seringais começaram a produzir em seis ou sete anos. Mesmo assim, o produtor precisa de financiamento de longo prazo e de período de carência para implantar a cultura”, explicou.

Segundo ele, essa necessidade de capital inicial ainda representa um dos principais desafios para a expansão de novas áreas, embora o bom desempenho produtivo continue atraindo investimentos.

Organização da produção influencia resultados

O desempenho dos seringais também depende da gestão eficiente da propriedade e da organização da rotina de trabalho. A extração do látex ocorre durante grande parte do ano, exigindo planejamento da mão de obra.

“A seringueira produz durante cerca de dez a onze meses por ano. Nesse período é necessário organizar bem a sangria das árvores para manter o rendimento da atividade. Um dos maiores desafios atualmente é a disponibilidade de trabalhadores, já que a extração ainda depende muito do trabalho manual”, relatou.

Para enfrentar essa limitação, produtores da região começaram a testar novas tecnologias. Entre elas está o uso de equipamentos elétricos para a sangria das árvores, alternativa que busca aumentar a eficiência do processo.

Geração de empregos e impacto nas comunidades

Além do retorno financeiro para os produtores, a cadeia produtiva da borracha movimenta a economia das comunidades rurais onde os seringais estão instalados. A atividade exige mão de obra contínua e contribui para a circulação de renda nos municípios.

“A seringueira permite gerar emprego ao longo de praticamente todo o ano. Em média, um trabalhador atua em cerca de seis hectares de plantação. Isso significa que a atividade emprega muita gente e ajuda a movimentar o comércio local”, afirmou.

Segundo José Fernando, a atividade também avançou nas condições de trabalho oferecidas aos profissionais envolvidos na extração do látex.

“Hoje existe uma estrutura mais organizada nas propriedades. Os trabalhadores contam com transporte, locais apropriados para refeições, áreas de descanso e instalações sanitárias dentro dos seringais. É uma realidade diferente do que existia em décadas passadas em várias regiões produtoras”, comentou.

Cultura agrícola aliada à preservação ambiental

Outro aspecto frequentemente associado ao cultivo da seringueira é a contribuição ambiental da cultura. As árvores permanecem por décadas nas áreas plantadas e auxiliam na conservação do solo e na captura de carbono.

“A seringueira é considerada uma cultura sustentável. Ela exige pouca aplicação de produtos químicos, ajuda na conservação do solo e contribui para o chamado sequestro de carbono, o que melhora a qualidade ambiental”, explicou.

O produtor também citou exemplos de áreas onde o plantio ajudou a estabilizar o terreno, graças ao sistema radicular profundo da planta, que forma uma rede de raízes capaz de reduzir processos erosivos.

Mercado internacional influencia o setor

Mesmo com avanços técnicos e bons índices de produtividade, o setor enfrenta desafios relacionados ao mercado internacional. A cadeia produtiva da borracha depende diretamente da indústria de pneus, que sofre impactos de políticas comerciais globais.

“Estamos vivendo um momento delicado no mercado. Com tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos como pneus, houve redução das exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, países asiáticos passaram a direcionar mais produtos para o Brasil, aumentando a concorrência e pressionando o setor”, explicou.

Segundo ele, essas mudanças afetam toda a cadeia produtiva, desde as fábricas de pneus até as usinas responsáveis pela compra da borracha dos produtores.

Evento discute gestão e mercado da borracha

Para discutir os desafios do setor e apresentar alternativas aos produtores, a Associação de Produtores de Borracha Natural realiza nesta sexta-feira um encontro em Goianésia voltado ao setor.

A programação inclui palestras sobre mercado, gestão e estratégias para aumento da produtividade nos seringais.

“Vamos promover um encontro para debater o mercado da borracha e apresentar técnicas que podem melhorar o desempenho dos seringais. Mesmo quando o produtor não consegue controlar o preço do produto, é possível aumentar a produtividade sem elevar os custos da propriedade”, afirmou.

O evento ocorre às 18h30 no restaurante do Parque de Exposições Agropecuárias de Goianésia, no bairro Muniz Falcão. A participação é aberta a produtores, trabalhadores do setor e interessados na atividade.

Segundo a organização, não é necessário realizar inscrição antecipada. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (62) 98429-9408 ou pelo perfil da associação no Instagram @associacao_aprob.