91% das vítimas não possuíam medida protetiva

Goianésia- A maioria das vítimas de feminicídio no Brasil é formada por mulheres negras, assassinadas principalmente por companheiros ou ex-companheiros. É o que aponta o estudo Retrato dos Feminicídios no Brasil, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que analisou ocorrências entre 2021 e 2024.

Em Goiás, nos últimos dois anos, foram registrados 56 casos de feminicídio. Em 91,1% das situações, as vítimas não possuíam medida protetiva contra o agressor, índice superior à média nacional, que é de 86,9%.

A advogada especialista em direitos das mulheres, mães e crianças, Ana Carolina Fleury, afirma que os números evidenciam a dificuldade de garantir a efetividade das leis de proteção. Segundo ela, municípios menores, especialmente aqueles com até 50 mil habitantes, concentram taxas mais elevadas de feminicídio e contam com menor estrutura de atendimento especializado.

“Se qualquer ponta dessa rede não está funcionando direito, sem infraestrutura, sem investimento público, o risco para as vítimas aumenta. Atuamos diariamente com inúmeras mulheres, cada uma com histórias e contextos diferentes. A falta de capacitação de servidores, do poder judiciário e da polícia acaba prejudicando mulheres que decidem denunciar ou até aquelas cujas situações são acionadas por vizinhos ou vizinhas”, afirma Ana Carolina.

Para a especialista, a redução da letalidade e a interrupção do ciclo da violência doméstica passam por enfrentar fatores estruturais, como desigualdades de gênero e padrões culturais marcados pelo machismo.

“Mulheres negras estão mais expostas a contextos de vulnerabilidade econômica e social, consequência histórica do racismo estrutural. Isso significa maior concentração em territórios com menos presença do Estado, violência armada, acesso limitado a serviços públicos e dificuldade para acessar redes de proteção. Muitas encontram barreiras para serem ouvidas e levadas a sério em delegacias, serviços de saúde ou no sistema de justiça, o que dificulta denúncias e impede medidas que poderiam evitar a escalada da violência”, explica Ana Carolina Fleury.

O levantamento revela que 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, e metade tinha entre 30 e 49 anos, indicando maior vulnerabilidade social desse grupo. O estudo também mostra que a violência de gênero frequentemente se cruza com a violência racial.

Quanto aos autores dos crimes, 59,4% eram companheiros, 21,3% ex-companheiros e 10,2% outros familiares. Em 2025, Goiás registrou 59 mulheres assassinadas vítimas de feminicídio, o que representa uma taxa de 1,6 caso para cada 100 mil habitantes.