Queda de preços e alta nos custos pressionam produtores e ampliam discussão sobre medidas emergenciais

Goianésia-  O crescimento das dívidas no meio rural voltou a mobilizar lideranças do agronegócio em diferentes regiões do país. A combinação entre recuo nas cotações de commodities, encarecimento de insumos e dificuldades de acesso a crédito tem comprometido a margem de produtores, especialmente os de menor porte. Diante desse cenário, representantes do setor defendem a reabertura do debate sobre a securitização das dívidas rurais como alternativa para reorganizar contratos e preservar a atividade produtiva.

Em entrevista exclusiva à RVC FM, Dr. Helio de Sousa, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Goianésia, avaliou que o tema exige atenção imediata do poder público. Somente após sua trajetória parlamentar e no Executivo municipal, ele também presidiu o Sindicato Rural de Goianésia, período em que acompanhou de perto as demandas do setor.

Ao relembrar o contexto histórico da criação da securitização, na década de 1990, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, Helio descreveu o ambiente econômico da época:

“O Brasil, na década de 80 e na década de 90, teve vários planos econômicos. Todos eles fracassados, os da década de 80. Quando entrou a década de 90, nós estávamos no governo Fernando Collor de Melo, a inflação ficou mais galopante. Você imagina uma inflação de 30% ao mês e o governo estava completamente desnorteado, perdeu o controle e quem trabalhava e quem produzia é quem pagava. Pagava caro. E aí entrou, principalmente, aqueles que investiam no campo.”

Segundo ele, com a implantação do Plano Real, foi necessário evitar um efeito em cadeia no crédito rural.

“Logo nos primeiros meses, ele buscou uma saída para o endividamento, principalmente, rural. Por que a preocupação de Fernando Henrique? É porque o principal fomentador, financiador do homem do campo, principalmente naquela época, era o Banco do Brasil. Se o Banco do Brasil não recebesse, os produtores rurais provavelmente iam perder suas terras.”

Helio explicou que o modelo adotado à época possibilitou a renegociação dos débitos com prazos ampliados e carência inicial.

“Criou-se, então, esse plano que dava um ano de carência e depois sete anos para você pagar sua dívida. E o que era importante, você poderia pagar, inclusive, com o seu produto, o arroz, o milho, o feijão, e com isso salvou-se a agricultura brasileira através da securitização.”

Semelhanças com o cenário atual

Para o ex-parlamentar, a conjuntura atual apresenta traços comparáveis aos do período que antecedeu a renegociação das dívidas rurais nos anos 1990.

“Passados mais de 30 anos, a gente nota que o agro está em dificuldade. Os proprietários rurais estão endividados. Enquanto tudo que eu uso para poder produzir vai num processo inflacionário, cada dia um preço, o produto que poderia fazer o equilíbrio há uma defração.”

Ele sustenta que a pressão sobre custos e a queda no valor de venda da produção têm reduzido drasticamente a rentabilidade nas propriedades.

Cadeia leiteira sob impacto direto

Ao tratar da produção de leite, Helio apontou redução expressiva no preço pago ao produtor nos últimos anos.

“Três anos atrás, vendia o litro de leite a R$ 3,00. Hoje, a média está em torno de R$ 1,50 a R$ 1,60. O que se gasta para produzir o leite não sobra nada com esse valor. A grande maioria está vendendo o seu gado e vai buscar outra atividade. Se eu não dou conta de ter a subsistência dentro da minha propriedade, eu acabo indo para a cidade.”

Ele pondera que a renegociação de dívidas, isoladamente, não seria suficiente para garantir a permanência dos pequenos produtores na atividade.

“A securitização, nesse caso, ela apenas vai amenizar. Se nós não tivermos preços justos para o produtor de leite, essa categoria vai sair do mapa. Não basta apenas eu renegociar. Eu tenho que ter uma garantia de que eu tenho um preço justo.”

Grãos: redução nas cotações e investimentos elevados

No segmento de grãos, como soja e milho, o ex-deputado observa que a queda nas cotações ocorreu após um período de forte investimento em tecnologia e mecanização.

“Tivemos, três anos atrás, a venda de soja a 180 reais a saca de 60 quilos. Hoje, em torno de 110. Essa difração leva esse setor a uma situação muito difícil, porque a grande totalidade investiu em equipamentos e tecnologia. Mesmo que a produtividade seja muito alta, aquilo que é fruto dessa difração faz com que os nossos produtos estejam totalmente defasados.”

Debate político e mobilização

Helio defende que o tema seja tratado como prioridade nas esferas federal e estadual, com articulação política ampla.

“É uma decisão política. Já aconteceu, então tem que se fazer de novo, porque a situação é silenciosa. A crise de 30 anos atrás está batendo à nossa porta. É preciso que o governo tenha sensibilidade.”

Ele também mencionou conversas com o ex-governador e pré-candidato ao governo de Goiás, Marconi Perillo, sobre a inclusão de medidas voltadas ao campo em propostas de governo.

“Ele sabe que se o produtor fracassar em Goiás, quem vai fracassar mesmo é o estado. O estado hoje é totalmente dependente da riqueza produzida no campo. É preciso olhar com muito carinho essa securitização e medidas para que o produtor se sinta animado para continuar a produzir.”

Ao final da entrevista, Helio defendeu a ampliação do debate público sobre o tema.

“Você, quando tem problemas, não pode escondê-los. O homem do campo quer trabalhar, quer produzir, quer ter a sustentabilidade dele, da sua família e da sua propriedade. Para isso, precisa de política de governo que entenda que o homem do campo hoje é a alavanca da economia do Brasil”, conclui.