Rede municipal atende quase oito mil alunos e contabiliza mais de 500 estudantes com laudo

Goianésia- A política de educação inclusiva tem se tornado um dos principais desafios das redes públicas de ensino em todo o país, exigindo planejamento contínuo, articulação entre áreas e respostas cada vez mais individualizadas às necessidades dos estudantes. Em Goianésia, esse cenário envolve uma rede com quase oito mil alunos e uma demanda crescente por atendimentos especializados, que vão além da sala de aula e dialogam com saúde, assistência social e acompanhamento familiar.

Em entrevista exclusiva à RVC FM, o secretário municipal de Educação, Noé Raimundo, detalhou como o município vem estruturando essa política ao longo dos últimos anos. Segundo ele, a organização da rede segue um conjunto de normas que orienta todas as ações.

“Não existe uma política de inclusão sem que tenhamos leis, decretos e resoluções que organizam e tornam referência aquilo que nós vamos fazer. Em Goianésia, nós já caminhamos há alguns anos, sobretudo nos últimos dez, para cumprir esses decretos, essas leis e essas resoluções”, afirmou.

Entre as medidas mais recentes, Noé Raimundo destacou a ampliação das equipes multiprofissionais nas escolas. “Neste ano, levamos novos profissionais para dentro das unidades, que começam a atuar agora em março. Profissionais que antes não existiam nessas salas especializadas, como fonoaudiólogo e psicólogo”, explicou.

Ele também anunciou a implantação do professor regente itinerante, uma função criada para dar suporte adicional às escolas. “Esse profissional atua observando, circulando pelos corredores, entrando na sala de aula quando necessário, auxiliando tanto nas salas especializadas quanto junto aos auxiliares de inclusão. É uma experiência nova, mas que já tem mostrado resultado.”

O secretário ressaltou que a construção desse modelo é coletiva e envolve diálogo constante com profissionais da educação e com as famílias. “As associações de pais são fundamentais quando trazem as demandas. Semana passada uma mãe procurou a emissora RVC e logo fomos notificados, isso contribui com o nosso trabalho. A secretaria foi acionada e a ação culminou na chegada do profissional que aquela criança aguardava”, relatou.

Na avaliação de Noé Raimundo, o atendimento educacional especializado precisa se sustentar em três pilares. “A inclusão precisa acolher, precisa zelar, mas também cumprir o papel da educação, que é desenvolver a criança na sua condição pedagógica. O nosso objetivo é que, ao final do ensino fundamental na rede municipal, essas crianças sigam alfabetizadas para a próxima etapa”, disse.

A diretora do Núcleo Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação de Goianésia, Mafalda Carbonaro, explicou como esse planejamento chega às unidades escolares. Segundo ela, o trabalho parte de orientações conjuntas e acompanhamento direto.

“Nós caminhamos na linha de escola para todos. O que define a criança não é um documento ou um laudo, mas aquilo que ela constrói, aprende e desenvolve. É o potencial dela que nos orienta”, afirmou.

Mafalda detalhou que a secretaria promove reuniões, define metas, orienta gestores e realiza visitas frequentes às escolas. “Estamos iniciando um processo de tutoria, em que profissionais da secretaria acompanham de perto as unidades, levando propostas de trabalho e monitorando a aplicação.”

Ela acrescentou que todas as escolas de ensino fundamental contam com salas de atendimento educacional especializado. “Algumas ainda estão em fase final de organização, porque existe todo um processo para estruturar esse atendimento, mas todas as unidades recebem orientação contínua do núcleo pedagógico.”

A coordenadora de Inclusão, Suely Pires, abordou um dos pontos mais sensíveis do processo: a identificação das reais necessidades dos estudantes e o diálogo com as famílias. “Nós dependemos do atendimento clínico, da orientação médica, mas laudo não é criança. Nós visitamos a unidade, conhecemos o aluno e avaliamos a necessidade real”, explicou.

Segundo ela, uma das principais dificuldades está na compreensão do papel de cada profissional. “Muitos pais acreditam que o filho tem direito a um profissional exclusivo, o que não é verdade. Hoje, a legislação não prevê mais o professor de apoio pedagógico exclusivo. Existe o profissional de apoio, que atua como cuidador, e o atendimento pedagógico é feito pelo professor do AEE e pela equipe especializada.”

Suely destacou que parte dos estudantes precisam, inicialmente, de acompanhamento terapêutico. “Tem criança que precisa primeiro ser socializada, desenvolver habilidades da vida diária. Isso acontece na clínica, não na educação. Depois, sim, ela avança no desenvolvimento pedagógico”, explicou.

Atualmente, a rede municipal atende 516 crianças com laudo, grande parte delas com diagnóstico de transtorno do espectro autista, níveis de suporte dois e três.

Ela detalhou como a secretaria define os encaminhamentos. “A primeira ação é conhecer o aluno. Fazemos uma anamnese com a família, entendemos a rotina, as habilidades e dificuldades. A partir disso, realizamos a análise pedagógica. O laudo é ponto de partida, não ponto final. Ele orienta, mas não limita.”

Ao final da entrevista, Noé Raimundo ressaltou que a política de inclusão em Goianésia envolve múltiplas áreas. “A educação sozinha não consegue fazer um atendimento completo. Por isso, a Secretaria de Saúde e a Secretaria de Promoção Social são braços fundamentais”, disse, citando o funcionamento do CREC, centro de referência voltado ao atendimento dessas crianças.