Goianésia - O Centro de Referência e Excelência em Dependência Química (Credeq) de Goianésia, inaugurado em 2018, permanece fechado até hoje, apesar de contar com uma infraestrutura moderna planejada para atender pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e drogas. A obra, que custou mais de R$ 28 milhões ao Governo do Estado, foi projetada para beneficiar cerca de 60 municípios da macrorregião Centro-Norte de Goiás, com mais de 1 milhão de habitantes. No entanto, a unidade permanece sem funcionamento.
Jalles Fontoura, prefeito de Goianésia na época da inauguração, lamenta que muitas famílias tenham sido prejudicadas com a inoperância da unidade. "O CREDEC foi uma obra inaugurada para apoiar as famílias de Goianésia e ajudar as pessoas com dependência química e de álcool. O objetivo era recuperar as pessoas, mas, hoje, o CAPS de Goianésia faz um atendimento apenas curativo e clínico. O CREDEC é muito mais profundo, pois pode reabilitar famílias inteiras. Só Goianésia já ocuparia a totalidade do espaço do CREDEC. Deixar essa obra parada por tantos anos é um absurdo, um desperdício de dinheiro público, enquanto as pessoas precisam de ajuda", declara Fontoura.
Apesar do alto investimento público, o prédio encontra-se em total abandono, com a estrutura deteriorada e sem manutenção, o que tem gerado indignação entre a população local. A dra. Rosa Stekelberg, membro do Conselho Municipal de Saúde, afirma que a situação do Credeq tem sido constantemente discutida e que diversas sugestões foram encaminhadas ao Governo do Estado para a destinação do espaço.
"Há muito tempo, o Conselho Municipal de Saúde tem se preocupado com isso. No ano passado, realizamos uma audiência pública com a Câmara Municipal para discutir a melhor destinação para o prédio. Chegou-se à conclusão de que o espaço poderia ser reaproveitado, como foi feito em Aparecida, transformando-o em um complexo de saúde mental, que incluiria também a prevenção ao uso de drogas, com apoio do Ministério da Saúde. Infelizmente, a obra foi feita por uma gestão estadual anterior e depende da vontade política do Governo do Estado atual. Não adianta alegar que foi um erro do governo anterior, pois quem assume o cargo tem a responsabilidade de resolver a situação", afirma.
Enquanto isso, famílias que enfrentam a dependência química em Goianésia precisam buscar tratamento em outras cidades ou contar com o atendimento limitado da rede municipal de saúde, que não possui a mesma estrutura planejada para o Credeq. Em Aparecida de Goiânia, uma unidade do Credeq está em pleno funcionamento, servindo de referência para a região. Marcus Tulio Balena, gerente multiprofissional da unidade, destaca a importância de expandir essas unidades para outras cidades do interior de Goiás.
“Goiás possui 246 municípios e cerca de 7 milhões de habitantes. Nem todas as cidades têm uma rede de atendimento adequada para pessoas com dependência química ou transtornos mentais. Nos municípios menores, a dificuldade de acesso a profissionais especializados, como psicólogos e psiquiatras, é grande. O Credeq foi uma estratégia do Estado para preencher essa lacuna. Na unidade de Aparecida de Goiânia, temos uma média de 1.300 atendimentos ambulatoriais mensais e 108 leitos disponíveis para internação, com pacientes que podem permanecer de 1 a 90 dias”, explica Balena.
Além do desperdício de recursos públicos, o prédio abandonado tem sido alvo de vandalismo e se tornou um ponto de insegurança, afetando a comunidade local. A vereadora Taiza Andrade expressa indignação com a situação e afirma que, se o Credeq estivesse em funcionamento, poderia beneficiar muitas famílias.
"É lamentável para nós, que vimos a entrega de uma obra tão importante e bem projetada, como o Credeq, em 2018. Sete anos se passaram e o que temos é um prédio abandonado. Essa obra estava pronta para funcionar, mas, por causa do descaso do governo atual, está paralisada até hoje. Tantas vidas poderiam já ter sido salvas, mas o que vemos é o abandono da população. Já realizamos uma audiência pública sobre o tema, com a presença de várias autoridades, e a situação continua a mesma", detalha a vereadora.
Moradores exigem mais transparência e uma solução imediata para que o espaço seja utilizado. Para muitos, o prédio parado é um desperdício de dinheiro público e uma perda de uma oportunidade de salvar vidas, como afirma o goianesiense Gilmar Dias.
"Esse prédio foi feito para ajudar muitas pessoas que precisam de atendimento, e ele está fechado. Isso é muito triste, porque a intenção do Credeq era ajudar pessoas. Não é certo que um prédio tão importante como esse esteja fechado", afirma Dias.
Em nota, a Secretaria de Comunicação do Estado de Goiás informou que o Credeq de Goianésia segue sob administração da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) e que a destinação do prédio está sendo avaliada dentro do contexto das atuais políticas públicas e investimentos em saúde.
Vale lembrar que, em 2023, o Ministério Público de Goiás, por meio da segunda Promotoria de Goianésia, questionou o Estado de Goiás sobre a situação de abandono do prédio e foi informado de que não havia interesse na implementação de programas de atenção psíquica no município, mas que a possibilidade de cessão do prédio a outras secretarias estava sendo analisada pelo Governo.
O promotor responsável pelo caso, Tommaso Leonardi, após buscar soluções extrajudiciais para o problema, decidiu propor uma ação civil pública com pedido de tutela de urgência para que fosse determinado ao Estado de Goiás a elaboração de um plano de trabalho devidamente estruturado no prazo máximo de 120 dias. O plano deveria ser voltado à promoção da efetiva afetação do imóvel ao atendimento de alguma finalidade pública, ação esta que também não obteve sucesso.




