Estudo revela que China destinou US$ 4,2 bilhões ao Brasil em 2024, impulsionando setores como energia e veículos elétricos

 

Goianésia - O investimento direto da China no Brasil mais que dobrou em 2024, alcançando US$ 4,2 bilhões, o que representa um crescimento de 113% em relação ao ano anterior. Com esse avanço, o Brasil se tornou o terceiro principal destino mundial dos recursos chineses, atrás apenas de dois países europeus, e o primeiro fora do continente europeu. Os dados são do estudo mais recente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que aponta um fortalecimento significativo dos laços econômicos e diplomáticos entre os dois países.

Segundo o relatório, os aportes chineses no Brasil, antes concentrados em grandes projetos de energia e petróleo, agora também se expandem para novos setores, como o de carros elétricos. “É excelente a entrada da China. Vai promover um choque de competitividade com outras empresas do setor industrial brasileiro”, afirmou Uallace Moreira, chefe de desenvolvimento industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Apesar do otimismo, Moreira destaca que o país precisa avançar na nacionalização das cadeias produtivas. Ele observa que muitas fábricas chinesas instaladas no Brasil ainda importam componentes da China, limitando o potencial de geração de empregos e o desenvolvimento industrial local. “Precisamos fazer com que esses investimentos desenvolvam as cadeias produtivas aqui”, ressaltou.

O estudo também mostra que as tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China têm impactado o destino dos investimentos chineses. De acordo com Túlio Cariello, autor do levantamento, empresas chinesas estão redirecionando seus aportes para economias em desenvolvimento como o Brasil, enquanto recuam nos Estados Unidos. Em 2024, os investimentos chineses nos EUA somaram apenas US$ 2,2 bilhões, bem abaixo do volume destinado ao Brasil. “É uma tendência causada por essas tensões geopolíticas”, analisou Cariello.

Ainda assim, os Estados Unidos continuam sendo a maior fonte de investimento estrangeiro direto no Brasil, com US$ 8,5 bilhões investidos no ano passado, segundo dados do governo federal. O nível atual dos investimentos chineses também está abaixo da média registrada entre 2015 e 2019, quando os aportes anuais somavam cerca de US$ 6,6 bilhões, concentrados em grandes projetos de infraestrutura energética.

Nos últimos meses, empresas chinesas de tecnologia, como Meituan e Didi, iniciaram operações no Brasil no setor de entrega de alimentos, indicando diversificação dos investimentos. No entanto, o ambiente regulatório e trabalhista brasileiro ainda representa um desafio para os investidores estrangeiros. Moreira reconhece as dificuldades enfrentadas pelas empresas: “As cadeias produtivas são mais caras, o sistema tributário é complexo e as leis trabalhistas são mais rígidas. A lei aqui é muito diferente da China”, afirmou.

O setor também enfrenta polêmicas. Neste ano, a montadora chinesa BYD foi processada pelo Ministério Público do Trabalho após autoridades encontrarem 163 trabalhadores em condições análogas à escravidão em uma de suas obras no Brasil. A empresa negou as acusações e afirmou estar colaborando com as investigações.

Mesmo diante dos desafios, o Brasil segue se consolidando como um destino estratégico para os investimentos chineses, com potencial de expansão nos próximos anos caso consiga avançar na estruturação de políticas que estimulem a industrialização e o fortalecimento das cadeias produtivas locais.