Goianésia-A evolução das ferramentas de inteligência artificial (IA) ampliou a capacidade de produzir conteúdos falsos com aparência cada vez mais próxima da realidade. No ambiente digital, esse recurso também passou a ser utilizado por criminosos para criar histórias fictícias, explorar situações de vulnerabilidade e induzir usuários a transferirem dinheiro. Um desses casos chamou atenção após um vídeo de um suposto padre, que teria perdido as duas pernas e precisaria de recursos para comprar próteses, circular pelas redes sociais.
O caso foi abordado pelo delegado Marco Antônio Maia, titular da Delegacia de Barro Alto, no quadro “De Olho no Golpe”, da RVC FM. Segundo ele, a gravação apresentava elementos capazes de convencer quem assistisse ao conteúdo sem realizar uma verificação mais detalhada.
O vídeo mostrava um homem apresentado como padre, acompanhado de uma mulher que seria sua mãe. Na narrativa, o personagem teria sofrido um acidente quando seguia para celebrar uma missa e precisaria de ajuda financeira para voltar às atividades religiosas.
O delegado explicou que a fraude foi identificada depois que um repórter recebeu o vídeo e decidiu verificar se o caso realmente havia acontecido. A ausência de registros sobre um sacerdote que tivesse sofrido o acidente levantou suspeitas.
“O repórter começou a investigar e procurou esse assunto nas redes sociais. Não achou nenhum padre que tivesse se acidentado recentemente e perdido as duas pernas. E aí ele passou a analisar o vídeo com mais detalhes. O que chamou a atenção dele foram os movimentos da boca. A inteligência artificial é muito perfeita, mas ainda existem alguns defeitos, alguns atrasos. A boca ainda não acompanha tão bem o movimento da fala.”
Dinheiro era direcionado para conta de terceiro
A investigação informal feita pelo repórter também encontrou uma inconsistência na destinação das doações. Em vez de uma instituição religiosa ou de uma conta vinculada ao suposto sacerdote, os recursos seriam enviados para uma fintech, instituição financeira que oferece serviços digitais.
O delegado relatou que a conta estava registrada em nome de uma terceira pessoa que, conforme informado na entrevista, não tinha conhecimento de que seus dados estavam sendo utilizados daquela forma.
“Ele começou a investigar ainda mais e descobriu que o destinatário não era a igreja, não era o padre, era uma fintech. E essa fintech já estava em nome de uma terceira pessoa, que nem sabia que existia essa conta. Foi aí que ele descobriu realmente que era um golpe.”
O episódio também expõe um segundo problema: além da criação de personagens e histórias fictícias, criminosos podem utilizar dados de pessoas que não têm relação com a fraude para movimentar os valores recebidos.
De acordo com Marco Antônio Maia, o caso não deve ser tratado como uma situação isolada. A possibilidade de criar rapidamente vídeos com personagens e narrativas falsas amplia o alcance desse tipo de prática, principalmente quando o conteúdo é compartilhado entre usuários.
“Hoje qualquer golpista pode contar qualquer história, e a inteligência artificial transforma essa história comovente, cativante, em um vídeo. E aí você passa para uma pessoa, para duas, e isso vai se espalhando em uma corrente.”
No caso apresentado pelo delegado, o material já havia ultrapassado mil compartilhamentos quando as suspeitas foram levantadas. Até o momento da entrevista, as investigações ainda não haviam identificado os responsáveis pela produção e divulgação do conteúdo, nem determinado quantas pessoas poderiam ter enviado dinheiro.
A estratégia utiliza situações capazes de provocar uma reação emocional imediata, como acidentes, doenças e dificuldades financeiras. A intenção é fazer com que o usuário tome uma decisão antes de confirmar se a história realmente existe.
“Então, hoje, na internet, você consegue pesquisar, ver se aquele fato existiu ou não. Você pesquisa, joga no Google, não precisa ser inteligência artificial, vê se aquele fato é verdadeiro e tenta confirmar.”
Dados pessoais podem ser usados para abrir contas
Outro ponto abordado no programa foi a utilização do CPF de uma idosa de Goiás para a abertura da conta que teria recebido os valores. O delegado explicou que criminosos podem se aproveitar de dados pessoais expostos ou obtidos de diferentes formas para criar contas bancárias em nome de terceiros.
Para reduzir esse risco, Marco Antônio Maia citou o Protege Mais, mecanismo do Banco Central que permite ao cidadão impedir a abertura de novas contas bancárias ou a inclusão de seu CPF ou CNPJ em determinadas situações sem uma autorização prévia.
“Você entra nesse aplicativo Protege Mais do Banco Central, cadastra seu CPF e, a partir daí, nenhuma conta pode ser aberta para você. Para abrir, é necessário entrar no aplicativo, desbloquear o Protege Mais, abrir a conta e depois voltar ao aplicativo para fazer novamente o bloqueio.”
Segundo o delegado, contas abertas em nome de terceiros podem ser utilizadas para receber os valores das vítimas e, posteriormente, transferi-los para outras contas. Essa movimentação pode dificultar a identificação da origem e do destino do dinheiro durante as investigações.
“Ele utiliza essa conta para cometer o crime, o dinheiro cai e depois eles vão espalhando em várias contas para tentar realmente dificultar o trabalho de rastreamento posterior.”
Como verificar uma campanha antes de doar
Para o delegado, a primeira medida antes de fazer uma transferência motivada por uma publicação nas redes sociais é verificar se a história realmente aconteceu. A recomendação vale principalmente para conteúdos que apresentam situações muito dramáticas e pedidos urgentes de dinheiro.
Além da existência da história, é necessário observar para quem o dinheiro será enviado. O usuário deve conferir os dados apresentados na campanha e verificar se a conta, instituição, empresa ou organização indicada tem relação com o caso divulgado.
“E sempre tentar pesquisar realmente qual é o mecanismo para onde está indo esse dinheiro. Tentar pesquisar a conta, de quem é, qual o CNPJ. A gente sabe que não é fácil, mas hoje, até para ajudar as pessoas, é preciso ter cautela e prudência para que a gente não caia em um golpe e, principalmente, não fomente o crime.”
Tecnologia pode dificultar identificação das fraudes
A análise visual de falhas em vídeos pode ajudar atualmente na identificação de conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial. No entanto, o avanço das ferramentas tende a tornar essa verificação cada vez mais difícil para o usuário comum.
O delegado avalia que, com a evolução da tecnologia, características que hoje podem denunciar uma manipulação poderão deixar de ser perceptíveis a olho nu. Por isso, a checagem da história e da destinação do dinheiro deve continuar fazendo parte da decisão antes da doação.
“Mas isso vai ser por agora. Eu acho que a inteligência artificial está em uma evolução tão rápida, tão acelerada, que rapidamente a gente não vai conseguir perceber a olho nu que se trata realmente de uma fraude.”
Além do prejuízo financeiro individual, o dinheiro obtido por meio dessas campanhas pode alimentar estruturas criminosas. Por isso, a orientação apresentada no quadro “De Olho no Golpe” é que a solidariedade seja acompanhada de verificação, principalmente quando o pedido chega pelas redes sociais e envolve transferência imediata de valores.




