Goianésia-A tecnologia passou a ocupar um espaço cada vez maior na rotina escolar, profissional e pessoal, modificando a maneira como as pessoas estudam, trabalham, produzem conteúdos e se comunicam. Diante desse cenário, a edição 2026 do Concurso de Redação Dr. Otávio, Construtor de Sonhos, propõe aos estudantes de Goianésia uma reflexão sobre os efeitos dessas transformações. A prova é realizada nesta quarta-feira (2),no Centro Universitário Evangélico de Goianésia (Uniego), com o tema sorteado “Inteligência Artificial e seus impactos na sociedade”.
Participam da etapa estudantes selecionados a partir das maiores notas em Língua Portuguesa obtidas durante o primeiro semestre deste ano. O grupo corresponde aos 20% de alunos com melhor desempenho na região. Após a produção dos textos, as redações passarão por uma banca examinadora, responsável pela avaliação e definição dos classificados.
A gerente de desenvolvimento humano do Grupo Otávio Lage, Railene Rios, explica que, encerrada a produção textual, começa uma nova etapa do concurso, que envolve a organização e o encaminhamento dos trabalhos para avaliação.
“A Secretaria de Educação já organiza todas as redações embaladas e conferidas para a gente enviar para a banca examinadora. A banca vai pegar essas redações e fazer essa correção, que é uma correção criteriosa. Com certeza serão muitas redações boas. Após a banca finalizar, eles enviam as redações para a gente fazer a premiação no dia 24. E no dia 25 iremos até a turma do ganhador, do primeiro colocado, para fazer uma grande festa junto com os colegas.”
Além da capacidade de desenvolver um texto, a proposta deste ano coloca os participantes diante de uma discussão que envolve mudanças rápidas na forma como as informações são produzidas e utilizadas. Para Railene, o avanço das ferramentas de inteligência artificial exige também uma postura de análise por parte de quem as utiliza.
“Nós já trabalhamos com esse tema há alguns anos, mas, vendo esse avanço, hoje estamos em outra dimensão. Então, estamos em um momento de avanço rápido em relação aos ganhos que a IA traz para nós. É muita informação ao mesmo tempo, e precisamos conseguir organizar essas informações e ver o que é válido para cada um, para cada negócio. Eu acho que essa é a grande questão. Não dá para entender tudo, saber tudo e querer tudo, até porque não é necessário.”
A quantidade de conteúdos disponíveis por meio dessas ferramentas pode facilitar o acesso ao conhecimento, mas também cria o desafio de selecionar aquilo que realmente é útil e confiável. A avaliação sobre os efeitos da IA, portanto, envolve tanto as possibilidades oferecidas pela tecnologia quanto as consequências do uso excessivo ou inadequado.
Na visão de Railene, a expectativa é que os estudantes consigam abordar os dois lados da transformação tecnológica, sem tratar a inteligência artificial como uma solução para todos os problemas.
“Eu tenho certeza de que muitas pessoas achavam que a IA iria resolver tudo na vida de todos. E, neste momento, estamos vendo que não é isso. Então, vejo uma reflexão muito grande, inclusive sobre as perdas que a IA traz. Também precisamos ter um olhar crítico, que é isso que eu espero, inclusive, que os alunos tragam: a IA é muito importante no seu espaço, no seu momento, mas ela não substitui pessoas. Claro que teremos um remanejamento, formas diferentes de trabalho e profissões diferentes, mas o ser humano é insubstituível.”
A discussão também chega diretamente ao ambiente educacional. A coordenadora regional de educação de Goianésia, Larissa Campos, considera que a ferramenta já faz parte da rotina de diferentes faixas etárias e atividades, desde a elaboração de textos até os estudos.
“Todos os nossos alunos, todos os seres humanos, hoje usam a inteligência artificial para produzir um texto, editar uma foto, realçar sua beleza ou até mesmo como ferramenta de apoio aos estudos e à profissão. Eu penso que a inteligência artificial é uma realidade que veio para ficar. O que precisamos é utilizá-la de forma consciente e profunda, para que a máquina não se sobreponha ao ser humano.”
Para Larissa, a experiência vivida durante a pandemia mostrou os limites da substituição das relações presenciais por recursos tecnológicos. A avaliação é de que, mesmo com ferramentas capazes de executar tarefas complexas, a participação humana continua sendo determinante em processos como a educação.
“A pandemia nos trouxe vários prejuízos, mas um ganho que ela trouxe foi mostrar para a sociedade que uma máquina não substitui o ser humano. Haja vista a educação. Quanto nós perdemos com essas aulas remotas? Quanto perdemos porque não tínhamos o professor e o aluno na sala de aula? E a inteligência artificial não é diferente. Ela pode até produzir um lindo texto, mas não dá sentido a esse texto.”
Concurso busca desenvolver leitura e escrita
O Concurso de Redação Dr. Otávio, Construtor de Sonhos, também tem como objetivo estimular o desenvolvimento da leitura, da escrita e da capacidade de argumentação entre os estudantes. A participação envolve escolas públicas e particulares da região, ampliando a disputa para diferentes realidades educacionais.
A coordenadora regional de educação destaca que o trabalho desenvolvido ao longo do ano pode ser percebido não apenas durante a competição, mas também em outras avaliações e atividades escolares.
“Eu, olhando como educadora, com um olhar de fora das escolas, um olhar global, vejo que trabalhamos com 33 unidades escolares na nossa regional. Dentro de Goianésia, trabalhamos com 17 que participam do concurso, sendo escolas públicas ou particulares. Eu vejo o ganho no dia a dia do aluno. Vejo o ganho quando o professor propõe que o aluno faça a leitura de um texto e quando ele escreve e reescreve.”
Segundo Larissa, o contato frequente com textos e obras literárias também contribui para ampliar a capacidade dos estudantes de se expressarem e construírem argumentos. Esse processo começa na leitura e se estende para a produção escrita e a comunicação.
“Eu vejo os nossos alunos mais interessados, principalmente nos grandes clássicos literários. Vejo os nossos professores ainda mais entusiasmados em trabalhar com esses alunos. Por quê? Quando um aluno lê, ele escreve bem. Quando ele escreve bem, ele fala bem, ele argumenta bem.”
A relação entre o concurso e o desempenho escolar também é associada pela coordenadora aos resultados de avaliações externas. Ela cita o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), utilizado para medir o nível de aprendizagem dos estudantes da educação básica.
“Então, eu consigo, inclusive, pontuar para você o crescimento das nossas escolas por meio das proficiências. Tivemos agora a avaliação do Saeb, que é uma prova que mede a proficiência de todos os alunos da rede. E percebemos um crescimento na proficiência em Língua Portuguesa e Matemática, fruto também desse concurso.”
O público que participa dessas avaliações inclui estudantes que estão em etapas próximas de processos importantes, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Por isso, a prática de leitura e produção textual desenvolvida durante a trajetória escolar pode ter reflexos em outras provas e processos seletivos.
Critérios seguem modelo utilizado no Enem
A escolha dos vencedores ficará a cargo da banca examinadora contratada pela organização do concurso. A Coordenação Regional de Educação participa como parceira da iniciativa, mas, segundo Larissa, não interfere na definição da equipe responsável pela correção.
Na avaliação dos textos, são considerados critérios semelhantes aos utilizados no Enem, abrangendo diferentes aspectos da construção de uma redação, desde o domínio da escrita até a capacidade de compreender o tema e apresentar uma proposta.
“Quando se contrata uma empresa para a redação, ela utiliza os critérios do Enem para avaliar. Então, serão analisadas as cinco competências avaliadas no exame: demonstrar domínio da modalidade escrita, demonstrar conhecimento, saber relacionar, organizar e interpretar informações, elaborar propostas, compreender a proposta e, por fim, escrever um texto autoral.”
Com o tema voltado à inteligência artificial, os estudantes precisam apresentar uma abordagem própria sobre as transformações provocadas pela tecnologia. A expectativa é que os textos demonstrem conhecimento sobre o assunto, mas também revelem a capacidade individual de construir uma argumentação.
Larissa afirma que as experiências das edições anteriores mostram que os participantes costumam apresentar produções com ampla base de conhecimento e referências, sem deixar de lado a perspectiva pessoal.
“O que buscamos e o que vemos nas edições passadas são textos muito bem fundamentados, textos dignos de nota mil no Enem, que bebem muito de fontes bibliográficas, de autores, da literatura brasileira e estrangeira, mas que têm na sua essência a personalidade do aluno.”
Para a coordenadora, justamente essa identidade será um dos elementos esperados nos textos produzidos nesta edição. A proposta não é apenas demonstrar domínio sobre a inteligência artificial, mas mostrar como cada estudante compreende o assunto e o relaciona com a própria realidade.
“O aluno que está entre os dez ganhadores emprega ali o sentimento dele. Acho que é isso que esperamos dessa redação: que ela fale muito mais do aluno do que da inteligência artificial”, concluiu.




