Evento discute preconceito enfrentado por vítimas e consequências que permanecem

Goianésia- Quase quatro décadas após o acidente radiológico com o Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987, o tema volta ao centro das discussões em Goiás, impulsionado pelo interesse popular despertado por produções audiovisuais recentes sobre a tragédia. Em Goianésia, o Centro Universitário Evangélico de Goianésia (Uniego) realiza, na próxima segunda-feira, 11 de maio, uma nova edição da roda de conversa voltada à memória, aos impactos e às consequências deixadas pelo episódio, considerado um dos maiores desastres radiológicos do mundo fora de usinas nucleares.

A segunda edição do encontro será realizada às 19h, no auditório da instituição, com participação aberta ao público mediante inscrição antecipada. A programação reunirá especialistas, sobreviventes e profissionais que atuaram diretamente durante o período do acidente.

Debate multidisciplinar

Durante entrevista exclusiva à RVC FM, no programa Fatorama, a coordenadora de Ação Comunitária do Uniego, professora doutora Camila Cardoso, explicou que a proposta busca ampliar o conhecimento sobre um episódio que marcou profundamente a história de Goiás e do país.

“Foi um episódio muito marcante na história de Goiás, não só na sua história, mas na saúde de Goiás e de todos os goianos. E do Brasil, uma vez que foi o maior acidente radiológico no mundo fora de uma indústria. É um assunto multidisciplinar, envolve história, ciência, pesquisa, saúde e psicologia. Então, a necessidade foi o que fez com que a gente olhasse e voltasse a atenção para montar mais essa mesa redonda”, declarou.

Segundo ela, além de recuperar memórias sobre o acidente, a iniciativa também pretende aproximar os estudantes mais jovens de acontecimentos que antecedem suas gerações.

Interesse do público motivou nova edição

A primeira roda de conversa promovida pela instituição teve auditório lotado e grande participação da comunidade externa. De acordo com Camila Cardoso, o retorno do público foi decisivo para a realização de um novo encontro.

“Foi exatamente a comunidade externa que participou com a gente na primeira rodada. Aqueles que também não conseguiram participar solicitaram novos encontros para continuar o assunto”, contou.

Ela explicou que a nova edição foi construída em parceria com a Liga Acadêmica de Diagnóstico Bucal, Odontologia Hospitalar e Pacientes com Necessidades Especiais.

A presidente da Liga Acadêmica, Michelle Cabral França, comentou que a repercussão da série Emergência Radioativa ajudou a despertar novamente o interesse da população pelo tema.

“Deu uma repercussão muito grande. Por isso que nós decidimos trazer, nesta segunda edição, o médico e ex-secretário da Saúde da época, para apresentar uma perspectiva do que aconteceu, um olhar público”, explicou.

Ela também detalhou os convidados da mesa redonda, que contará com o médico e ex-secretário estadual da Saúde Antônio Faleiros, o físico, professor e pesquisador Eduardo Toledo e o sobrevivente Odesson Ferreira.

“O Odesson vem para essa mesa redonda para trazer a verdadeira história dele, contar o que realmente aconteceu, já que ele é uma testemunha sobrevivente desse acidente”, afirmou Michelle.

A estudante lembrou que muitos sobreviventes enfrentaram preconceito após a tragédia.

“Na mesa redonda da primeira edição, eles contaram a dificuldade que os filhos tiveram de voltar à escola, como foi esse preconceito que eles sofreram naquela época”, relatou.

Valor arrecadado será destinado às vítimas

As inscrições para participar da roda de conversa custam R$ 15 e podem ser feitas pelo site e pelas redes sociais da instituição. Todo o valor arrecadado será destinado à associação das vítimas do acidente com o Césio-137.

“Nós estamos promovendo o evento, e todo esse valor vai ser convertido para a associação de vítimas do acidente com o Césio-137”, explicou Michelle Cabral.

Camila Cardoso relatou que muitas vítimas ainda convivem diariamente com graves sequelas deixadas pela contaminação radiológica.

“A sequela é muito grande, é a nível de DNA, coisa que talvez a gente não consiga nem imaginar como acontece essa sequela nas células do corpo humano”, afirmou.

Ela também relatou a situação de sobreviventes que dependem de medicação contínua para manter a saúde.

“Para conseguir manter o organismo, sustentar o organismo, é necessário utilizar vários medicamentos, e isso traz muita oneração para o custeio de vida dessas pessoas”, declarou.

Inscrições podem ser feitas aqui.