Goianésia-Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) 2025, divulgados pelo Ministério da Educação, provocaram apreensão entre gestores e representantes do controle social da saúde em Goiás. A avaliação revelou que, em âmbito nacional, quase um terço dos cursos de medicina obteve desempenho insatisfatório, com conceitos 1 e 2, os mais baixos da escala. Em Goianésia, o tema foi analisado pelo Conselho Municipal de Saúde, que vê nos números um sinal claro de fragilidade na formação de novos médicos.
Expansão sem qualidade
Para a presidente do Conselho Municipal de Goianésia, Dra. Rosa Steckelberg, os dados evidenciam um problema estrutural que acompanha a expansão do ensino médico no país. Segundo ela, o crescimento acelerado do número de faculdades não veio acompanhado das condições mínimas necessárias para assegurar a qualidade exigida na formação profissional.
“Há um dado muito significativo: as universidades federais e estaduais concentram os melhores resultados, enquanto as piores notas aparecem, sobretudo, em cursos municipais, privados e com fins lucrativos. Esse cenário indica que a expansão do ensino médico no Brasil não foi acompanhada da estrutura física, pedagógica e das condições assistenciais indispensáveis para garantir uma formação adequada. Isso significa que estudantes formados nessas instituições podem estar ingressando no sistema de saúde com lacunas importantes na sua formação”, avalia.
Impactos diretos na assistência
Em todo o país, quase 39 mil estudantes concluintes participaram da avaliação. Desses, cerca de 13 mil não demonstraram proficiência compatível com as exigências da profissão médica. Na avaliação do Conselho Municipal de Saúde de Goianésia, esse resultado tem impacto direto na qualidade da assistência oferecida à população.
“Nós entendemos que esses números precisam ser analisados sob a ótica do interesse público. Médicos com formação deficiente impactam diretamente a qualidade do cuidado em saúde, aumentam os riscos assistenciais, fragilizam a confiança da população no sistema e acabam sobrecarregando as redes de atendimento. O ENAMED, mais do que uma prova, é um instrumento que permite identificar fragilidades, orientar políticas públicas e acionar mecanismos de correção”, afirma Rosa Steckelberg.
Cenário preocupante em Goiás
O cenário em Goiás exige atenção especial. Das 16 instituições de ensino médico avaliadas no estado, 10 receberam conceitos considerados insuficientes. Embora a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade Estadual de Goiás (UEG) e a UniEVANGÉLICA tenham alcançado bom desempenho, a maioria das faculdades apresentou dificuldades para manter padrões adequados de ensino.
Para o médico Luciano Leão, que acompanha de perto a discussão sobre a formação médica no estado, os resultados expõem a falta de acompanhamento efetivo por parte do poder público ao longo dos últimos anos. “O Ministério da Saúde autorizou a criação de faculdades, mas não se preocupou em acompanhá-las para verificar se estavam cumprindo suas obrigações. Hoje vivemos uma situação que já vinha sendo desenhada há algum tempo. Diversas entidades médicas e profissionais da área alertaram, por meio de artigos e manifestações públicas, sobre o excesso de faculdades de medicina. Estamos formando um número muito grande de médicos, o que já provoca saturação do mercado e dificuldades para absorver esses profissionais em hospitais, clínicas e serviços de saúde”, analisa.
Segundo ele, a responsabilidade não pode ser atribuída aos estudantes. “Os alunos não têm culpa. A falha está em uma estrutura que permitiu a criação de faculdades de forma desordenada, sem planejamento adequado. Agora chegamos a um ponto que se mostra insustentável”, completa.
Notas baixas e cobrança por providências
Entre os resultados que mais chamaram a atenção do Conselho Municipal de Saúde de Goianésia e de especialistas está o desempenho do campus da UniRV no município, que recebeu conceito 1, a menor nota do ENAMED. O mesmo conceito foi atribuído à unidade da UniRV em Formosa. Também obtiveram nota mínima o Centro Universitário de Goiatuba, o Centro Universitário Alfredo Nasser, em Aparecida de Goiânia, e a Faculdade Zarns, em Itumbiara.
Na avaliação de Luciano Leão, o desempenho dessas instituições indica falhas relevantes na formação médica, com consequências diretas para o atendimento à população e para o Sistema Único de Saúde (SUS).
“Grande parte dessas faculdades é privada, com mensalidades muito altas. Muitos alunos e famílias se endividam de forma extrema para custear a graduação. Há casos em que a dívida chega a valores próximos de um milhão de reais. O ENAMED veio justamente para mostrar que algo não está funcionando como deveria. As notas baixas, inclusive a da UniRV em Goianésia, mostram que este é o momento de identificar onde estão as maiores dificuldades e corrigi-las. Precisamos de professores bem preparados, estruturas adequadas, laboratórios apropriados e hospitais que ofereçam campos de prática suficientes”, defende.
Diante do cenário, o Conselho Municipal de Saúde de Goianésia cobra medidas imediatas. A entidade defende mais transparência por parte das instituições que obtiveram desempenho insuficiente e a apresentação de planos consistentes de melhoria, envolvendo investimentos em infraestrutura, qualificação do corpo docente e ampliação dos campos de prática.
Posicionamento Unidade Goianésia
Procurada pela reportagem, a direção da UniRV informou que aguarda um posicionamento oficial da reitoria sobre o resultado do ENAMED para se manifestar publicamente.




