Planejamento estratégico e apoio jurídico podem livrar produtores do processo de recuperação judicial

Goianésia- Em entrevista exclusiva à RVC FM, especialistas do setor agropecuário alertam para o avanço do endividamento entre produtores rurais no Brasil, impulsionado por investimentos elevados e financiamentos que, muitas vezes, não encontram o retorno esperado devido à instabilidade do setor. Com base em sua atuação técnica e jurídica, os profissionais defendem a reestruturação financeira como uma alternativa viável e menos traumática do que a recuperação judicial.

No cenário atual, é comum que o produtor rural recorra a financiamentos para sustentar a produção, modernizar equipamentos e ampliar a produtividade. No entanto, fatores climáticos adversos, queda no preço das commodities e aumento nos custos operacionais tornam os resultados incertos, e, consequentemente, comprometem o equilíbrio financeiro das propriedades.

O advogado Pedro Gonçalves destaca a necessidade de soluções especializadas para o campo. “Temos presenciado preços baixos e quebras de safra causadas por fenômenos climáticos, o que tem levado muitos produtores a enfrentarem sérias dificuldades para arcar com seus compromissos financeiros. A ideia é apresentar alternativas antes da recuperação judicial, por meio de uma reestruturação financeira bem orientada. O produtor rural é um herói: ele é o único empreendedor cuja fábrica funciona a céu aberto, dependendo de fatores naturais completamente imprevisíveis”, afirma.

A advogada Géssica de Castro, especialista em direito do agronegócio e na defesa de produtores em contratos bancários, explica que existe respaldo legal para situações de inadimplência rural. “Quando o produtor não consegue pagar suas dívidas, é possível recorrer ao alongamento ou à prorrogação da dívida rural. Esse é um direito previsto em casos como frustração de safra, aumento de custos e queda no valor da produção. O pedido deve ser feito administrativamente ao banco. Em caso de negativa, pode-se recorrer ao Judiciário”, explica.

Elton Duques, consultor,administrador de empresas e ex-gerente do Banco do Brasil por três décadas, reforça que o agronegócio precisa ser tratado com visão empresarial. “Temos produtores tecnicamente excelentes, mas ainda há uma grande lacuna em relação à gestão financeira. O desconhecimento sobre planejamento, rentabilidade e controle de riscos compromete a sustentabilidade do negócio. Nossa missão é estruturar essas finanças de forma que a propriedade rural funcione como uma empresa, um CNPJ viável e saudável”, pontua.

A reestruturação financeira, segundo os especialistas, deve ser construída a partir da união entre conhecimento jurídico e análise financeira. O objetivo é elaborar planos personalizados, considerando o fluxo de caixa, os prazos das dívidas e a capacidade real de pagamento do produtor.
“Nosso trabalho é conjunto. Desenvolvemos estratégias em que o jurídico e o financeiro caminham lado a lado, garantindo que o produtor tenha um retorno positivo. O fluxo de caixa é o termômetro que orienta as condições de pagamento. Nossa meta é que, ao final da safra, o produtor esteja com as finanças equilibradas. Recuperação judicial é sempre o último recurso. Em muitos casos, ela pode ser evitada com planejamento”, conclui Géssica.

Com a profissionalização da gestão e o apoio técnico adequado, o produtor rural pode superar os ciclos de instabilidade e preservar sua atividade no campo. A reestruturação financeira surge como alternativa sólida, preventiva e menos onerosa, garantindo viabilidade econômica em um setor vital para o país.