Especialista explica os avanços e os limites da nova opção terapêutica

Goianésia-Durante o Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, a atenção se volta não apenas à prevenção e ao diagnóstico precoce, mas também às novas alternativas disponíveis para pacientes que enfrentam a doença. Entre os avanços recentes está a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do camizestranto, medicamento oral indicado para casos específicos de câncer de mama avançado ou metastático.

A terapia é destinada a pacientes com tumores que apresentam determinadas alterações genéticas relacionadas à resistência aos tratamentos hormonais. Uma das formas de identificar essas alterações é a chamada biópsia líquida, exame realizado a partir de uma amostra de sangue.

A especialista em saúde pública, doutora Rosa Steckelberg, explica que o procedimento permite analisar fragmentos do DNA do tumor que circulam pelo sangue. Entre as alterações que podem ser identificadas está a mutação ESR1, que pode estar associada à resistência ao tratamento hormonal.

“Esse medicamento é voltado especialmente para pacientes que apresentam uma alteração, uma mutação que pode fazer com que o tumor se torne resistente a alguns tratamentos à base de hormônio. O camizestranto atua justamente nesse mecanismo, bloqueando e degradando o receptor de estrogênio, que é o hormônio das células tumorais.”

Segundo a especialista, a identificação da mutação por meio do exame de sangue pode auxiliar na definição da estratégia terapêutica, inclusive antes que uma eventual progressão da doença seja percebida de forma mais evidente nos exames de imagem.

“Essa mutação pode ser detectada no exame de sangue por meio da pesquisa de DNA circulante. Isso pode permitir uma mudança de tratamento, mesmo antes que a doença progrida de forma mais evidente e apareça nos exames de imagem.”

Os estudos que fundamentaram a aprovação do medicamento apontaram aumento no período de controle da doença entre pacientes selecionados. Por ser administrado por via oral, o tratamento também pode modificar a rotina de determinados pacientes em comparação com terapias que exigem aplicações ou infusões realizadas em ambiente hospitalar.

Apesar do avanço, a especialista chama atenção para os limites da nova terapia. O camizestranto não é indicado para todos os casos de câncer de mama e não representa uma cura para a doença. A utilização depende das características do tumor e da avaliação da equipe médica, além do acompanhamento de possíveis efeitos adversos.

Outro ponto é o acesso ao tratamento. A aprovação pela Anvisa permite que o medicamento seja utilizado no Brasil, mas não significa que ele passe a ser oferecido automaticamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“É sempre importante destacar que, primeiro, não estamos falando de cura, é um tratamento ainda, e também que não é para todos os tipos de câncer de mama. É para alguns casos específicos. É sempre necessário um rigoroso acompanhamento médico e o monitoramento de possíveis efeitos adversos por se tratar de um medicamento novo.”

Rosa Steckelberg explica ainda que, para uma eventual incorporação ao SUS, o medicamento precisa passar por outras etapas de avaliação pelas instâncias responsáveis pela análise de novas tecnologias em saúde.

“Essa aprovação permite o uso do medicamento no Brasil, mas isso não significa a sua incorporação automática ao SUS, que vai passar por algumas comissões. Então, é uma notícia que mostra o avanço da terapia com tratamentos mais modernos, mas também não é algo imediato. Ainda existem muitos passos para que ele seja uma realidade no Sistema Único de Saúde.”