Goianésia-O início do Setembro Amarelo coloca em debate não apenas a prevenção do suicídio, mas também a importância de familiares, amigos e colegas de trabalho identificarem mudanças de comportamento que podem indicar sofrimento emocional. Alterações na rotina, no convívio social e até em hábitos cotidianos podem passar despercebidas quando são interpretadas apenas como estresse ou uma fase passageira.
Em entrevista exclusiva à RVC FM, a médica Tatiane Paniago, especialista em Medicina do Trabalho e Medicina de Tráfego e pós-graduada em Psiquiatria, explicou que observar alterações no padrão habitual de uma pessoa pode ajudar a identificar quando algo não está bem.
“É preciso entender que cada ser humano é único. Às vezes, a pessoa muda o comportamento. Uma pessoa falante pode começar a ficar mais calada; alguém que gosta de sair pode se tornar mais recluso. Uma pessoa que gosta de viajar, cuidar de plantas ou conviver com animais pode deixar de demonstrar interesse por essas atividades. Alterações no sono, no apetite, aumento da irritabilidade e prejuízos na vida social, no trabalho ou na família também podem ser sinais de alerta”, explicou.
Para a médica, a mudança de comportamento merece atenção principalmente quando representa uma alteração em relação ao que era habitual naquela pessoa. O afastamento de atividades de que gostava, alterações no sono e no apetite, irritabilidade e dificuldades para manter o desempenho cotidiano podem indicar que algo precisa ser observado.
Tatiane também chama atenção para a forma como essas mudanças são interpretadas por quem convive com a pessoa. Situações como excesso de trabalho, problemas familiares ou uma rotina cansativa podem ser apontadas como justificativas imediatas, fazendo com que outros sinais sejam ignorados.
“Esse é um dos sinais que precisamos observar com cuidado. Às vezes, familiares e pessoas próximas dizem que é apenas uma fase, estresse ou sobrecarga, mas pode existir algo além disso. Por isso, é importante perceber essa mudança de padrão. O autoconhecimento e o conhecimento sobre as pessoas que convivem conosco ajudam a identificar quando algo não está bem.”
Quando os sinais passam despercebidos
Nem sempre o sofrimento emocional aparece de forma evidente. Segundo a especialista, pequenas alterações podem se acumular e, quando não são percebidas, dificultam que a pessoa receba ajuda. A forma como familiares e amigos reagem também pode influenciar na disposição para falar sobre o que está acontecendo.
“Uma pessoa mais desanimada, que era muito falante e deixou de conversar, alguém que tinha uma vida social ativa e passou a se isolar ou uma pessoa que sempre cuidava da aparência e deixou de fazer isso. Essas pequenas mudanças podem passar despercebidas. É preciso ter sensibilidade, observar e agir com empatia.”
A avaliação do comportamento não deve considerar apenas episódios isolados. A percepção de mudanças em relação à rotina anterior pode ajudar a identificar situações que merecem atenção, principalmente quando há impacto na vida pessoal, profissional ou familiar.
Prevenção além do consultório
Outro ponto abordado durante a entrevista foi a importância da ampliação do acesso à saúde mental. Para Tatiane, a prevenção precisa estar presente em diferentes espaços de convivência, permitindo que informações e formas de acolhimento cheguem às pessoas antes que o sofrimento se agrave.
“Eu considero muito importante essa prevenção. Hoje, muitas vezes, o cuidado fica restrito ao tratamento e ao atendimento em consultório. Precisamos expandir essa atenção para outros ambientes.”
A médica defende que o tema seja trabalhado em escolas, famílias, espaços públicos e locais de trabalho. Segundo ela, a capacitação de profissionais que têm contato direto com a população pode contribuir para identificar situações de sofrimento e encaminhar as pessoas para o atendimento adequado.
“É necessário fazer a diferença nas escolas, nas famílias, nos espaços públicos e nas empresas. Profissionais de saúde precisam estar capacitados para identificar essas pessoas que precisam de ajuda e avaliação de forma segura e correta. É necessário ter uma estrutura preparada para acolher.”
Os efeitos do estresse prolongado
Durante a conversa, a especialista também explicou que o estresse faz parte dos mecanismos naturais do organismo e pode ajudar as pessoas a reagirem diante de desafios. O problema surge quando esse estado permanece de forma constante e a pessoa não consegue relaxar.
“O nosso cérebro foi feito para isso. Os mecanismos de ansiedade e estresse fazem parte da nossa vida e nos ajudam a buscar objetivos. O problema é quando esse mecanismo fica constantemente ativado e a pessoa não consegue desligar a mente. Muitas pessoas relatam: ‘Doutora, eu não consigo desligar a minha mente’.”
Segundo Tatiane, quando o estresse foge do controle, ele pode comprometer o funcionamento cotidiano e se transformar em um problema de saúde.
“Precisamos entender que o estresse é necessário. Ele nos movimenta e nos ajuda a buscar objetivos. Mas, quando foge do controle, começa a se tornar prejudicial.”
Como oferecer ajuda
Ao perceber mudanças significativas em alguém próximo, a primeira atitude não deve ser tentar encontrar uma solução imediata, mas oferecer espaço para que a pessoa fale e demonstrar disposição para ouvir.
“A empatia e o acolhimento são fundamentais. Se você percebeu alguma mudança, talvez aquela pessoa ainda não tenha conseguido verbalizar o que sente. Às vezes, ela não encontrou palavras para explicar o que está passando. Por isso, é importante mostrar que ela tem uma rede de apoio.”
O sofrimento pode estar acompanhado de tristeza, desânimo, falta de energia, frustração ou vergonha. Nesses momentos, comentários que minimizam aquilo que a pessoa sente podem criar mais barreiras para que ela procure ajuda.
Evitar julgamentos
A tentativa de comparar o sofrimento de alguém com experiências pessoais ou com aquilo que, aparentemente, deveria fazê-la feliz pode ter efeito contrário. Para a médica, frases que questionam o motivo da dor podem afastar ainda mais quem enfrenta dificuldades.
“Às vezes, as pessoas dizem: ‘Você tem tudo, não tem motivo para estar assim. Você tem uma vida feliz, um casamento feliz, um bom trabalho. Por que está assim?’. Mas a pessoa já está sofrendo e, ao encontrar outra barreira, pode acabar se isolando ainda mais.”
Em situações mais graves, principalmente quando existem pensamentos relacionados à morte, a orientação é buscar atendimento especializado. Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde podem avaliar cada caso e indicar o acompanhamento adequado.
“A gente não pode normalizar o sofrimento, precisamos acolher. Toda dor é importante e precisa ser trabalhada. O acolhimento é o primeiro passo para que a pessoa tenha segurança e consiga falar sobre o que está passando. Em casos mais graves, com pensamentos relacionados à morte, é fundamental buscar ajuda de profissionais, como psicólogos e psiquiatras.”




