Ausência de uma transição natural do acompanhamento pediátrico para o atendimento especializado na fase adulta também é um pontoa citado por profissionais da área

Goianésia - A resistência dos homens em buscar atendimento médico está diretamente ligada a fatores culturais, como machismo e preconceito, apontam especialistas em saúde. Levantamentos indicam que 46% dos homens acima dos 40 anos só procuram um médico quando já apresentam sintomas, comportamento que dificulta o diagnóstico precoce de doenças como câncer de próstata, diabetes e problemas cardiovasculares.

Dados do Ministério da Saúde reforçam esse cenário. Entre os 12 e 18 anos, meninas realizam até 18 vezes mais consultas ginecológicas do que meninos procuram um urologista. Para o médico Pedro Junqueira, essa diferença reflete uma cultura que afasta os homens do cuidado preventivo desde cedo, favorecendo diagnósticos tardios e tratamentos mais complexos. “O problema base é o machismo. O homem é ensinado a se enxergar como alguém intocável, forte o tempo todo, sem falhas. Procurar um médico acaba sendo interpretado, consciente ou inconscientemente, como sinal de fraqueza”, explica. Segundo ele, esse comportamento também se reflete na falta de incentivo para que pais cuidem da saúde dos filhos do sexo masculino ainda na adolescência.

De acordo com o especialista, um dos maiores desafios nos consultórios é transformar a prevenção em hábito entre os homens, assim como já ocorre com as mulheres. Atualmente, muitos pacientes só chegam ao atendimento motivados por problemas cardiovasculares ou pela prevenção do câncer de próstata, que acaba se tornando a principal porta de entrada nos consultórios de urologia.

Durante essas consultas, os médicos aproveitam para avaliar a saúde de forma ampla, solicitando exames como dosagem de colesterol, investigação de diabetes, avaliação hormonal e da tireoide. Em muitos casos, esse acompanhamento permite identificar doenças em estágios iniciais e iniciar o tratamento antes que o quadro se agrave. Pedro Junqueira alerta que o preconceito ainda é um dos maiores obstáculos. “Hoje, considero que o principal assassino da nossa sociedade é o preconceito. Ele impede o homem de procurar ajuda e acaba levando a diagnósticos extremamente tardios. É doloroso ver pais, avôs e filhos perdendo a vida quando ainda tinham tantas possibilidades pela frente”, afirma.

Outro ponto destacado pelos especialistas é a ausência de uma transição natural do acompanhamento pediátrico para o atendimento especializado na fase adulta. Diferentemente das mulheres, muitos homens deixam de procurar um clínico geral ou urologista ao longo da vida, interrompendo o cuidado contínuo com a saúde e aumentando o risco de problemas não diagnosticados.

Para homens sem queixas específicas, uma consulta de rotina por ano é considerada suficiente. Esse acompanhamento permite orientar sobre hábitos de vida e alimentação, além de identificar precocemente doenças como hipertensão, diabetes, depressão e alterações urológicas, reduzindo significativamente os impactos do diagnóstico tardio.