Goianésia - Dados do Censo 2022 mostram que a população negra, formada por pretos e pardos, é majoritária em Goiás e representa 63,37% dos moradores do estado, o equivalente a 4,47 milhões de pessoas. Em 227 dos 246 municípios, os pardos são maioria. Mesmo com essa presença expressiva, os indicadores sociais continuam revelando diferenças significativas em renda, educação e acesso a oportunidades.
A desigualdade salarial é um dos pontos mais evidentes. Enquanto um trabalhador branco recebe em média R$ 20,00 por hora, pretos e pardos ganham R$ 12,40, o que representa um rendimento 61,4% menor. Em Goiânia, mais da metade das pessoas negras inscritas no CadÚnico não concluiu o ensino fundamental. O cenário se repete em outros indicadores: a taxa de alfabetização dos pretos é de 85,79%, percentual inferior ao de outros grupos étnicos. No mercado de trabalho, a população negra é maioria entre os desocupados e os trabalhadores subutilizados, além de concentrar os maiores índices de informalidade.
No ambiente profissional, a desigualdade também se manifesta. Pretos e pardos ocupam com mais frequência setores como serviços domésticos, construção civil e parte da agropecuária, enquanto trabalhadores brancos predominam em áreas que exigem maior qualificação ou estabilidade, como administração pública, educação e setores financeiros. Mesmo entre pessoas com ensino superior, a diferença persiste: brancos recebem mais por hora trabalhada do que negros com o mesmo nível de formação.
O empreendedorismo surge como alternativa para muitos, mas encontra obstáculos. Estimativas baseadas em dados do Sebrae indicam que a maioria dos negócios em Goiás é liderada por pessoas negras, embora grande parte deles ainda opere na informalidade e com dificuldade de acesso a crédito. Histórias como a do empresário Roberto Lima, que começou vendendo quitandas e enfrentou resistência no mercado, ilustram esse caminho.
A educação também revela disparidades. Escolas de regiões periféricas de Goiânia ainda lidam com evasão escolar, infraestrutura limitada e baixa oferta de programas de apoio. Pesquisadores apontam que essas condições impactam diretamente a trajetória dos estudantes negros. A universitária Tainara Souza relata que só conseguiu ingressar na faculdade depois de três tentativas no vestibular, enquanto muitos colegas desistiram no percurso. Mesmo políticas como a lei de cotas, que ampliaram o acesso ao ensino superior, encontram barreiras quando o desafio passa a ser a permanência.
Essas desigualdades se refletem ainda na organização urbana. Bairros como Jardim Novo Mundo, Jardim Guanabara e Novo Horizonte concentram grande parte da população negra da capital e acumulam problemas como falta de equipamentos públicos, violência e pouca oferta de oportunidades. O Atlas da Violência indica que jovens negros em Goiás têm mais de duas vezes a chance de serem vítimas de homicídio quando comparados aos jovens brancos.
Programas sociais do governo estadual, como o auxílio de R$ 250 para mães em vulnerabilidade, beneficiam principalmente mulheres negras, mas especialistas lembram que iniciativas desse tipo precisam vir acompanhadas de investimentos estruturais em educação, emprego e qualificação profissional para romper ciclos de pobreza.
A discriminação institucional segue presente no cotidiano. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva aponta que sete em cada dez pessoas negras já sofreram algum tipo de constrangimento racial. Medo, insegurança e experiências negativas afetam comportamentos simples, como correr para pegar ônibus, pedir informação a policiais ou circular em determinados espaços. No trabalho, relatos de critérios subjetivos em promoções, assédio moral e racismo velado ainda são comuns.
No interior do estado, comunidades quilombolas como o Quilombo Kalunga, em Cavalcante, mantêm vivas tradições culturais mesmo enfrentando graves desafios estruturais. A falta de água tratada, energia regular e acesso pleno à saúde compromete a qualidade de vida de muitas famílias. Cavalcante, inclusive, tem o maior percentual de população preta de Goiás, com 35,14%.
O Dia da Consciência Negra reforça a necessidade de enfrentar desigualdades históricas. Em Goiás, apesar da representatividade da população negra, os desafios permanecem profundos. Ainda assim, iniciativas sociais, empreendedores, coletivos culturais e movimentos comunitários mostram resistência e apontam caminhos para transformar essa realidade. A construção de uma sociedade mais justa passa necessariamente por reduzir distâncias que ainda pesam sobre a população negra no estado.




