Diagnóstico durante a prisão agravou seu estado de saúde

Goianésia- Damaris Vitória Kremer da Rosa, de 26 anos, morreu 74 dias após ser absolvida pelo júri popular que a inocentou das acusações de homicídio que a mantiveram presa por seis anos. Diagnosticada com câncer no colo do útero enquanto estava na prisão, ela não resistiu às complicações da doença. O sepultamento ocorreu no Cemitério Municipal de Araranguá, em Santa Catarina.

De acordo com registros da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo, Damaris foi presa preventivamente em agosto de 2019, suspeita de envolvimento na morte de Daniel Gomes Soveral, ocorrida em novembro de 2018, em Salto do Jacuí, no Noroeste do Rio Grande do Sul. A denúncia formal foi apresentada em julho de 2019.

Na acusação, o Ministério Público afirmou que Damaris teria “ajustado o assassinato juntamente com os denunciados” e mantido “conduta dissimulada, um relacionamento com a vítima, de modo a fazê-la ir até Salto do Jacuí, local estipulado para a execução”. Além dela, outras duas pessoas foram investigadas pelo crime: Henrique Kauê Gollmann, namorado de Damaris na época, acusado de efetuar o disparo que matou Daniel, e Wellington Pereira Viana, que teria “ajustado e auxiliado na organização do homicídio”. Henrique foi condenado pelo júri e cumpriu pena no Presídio Estadual de Venâncio Aires, enquanto Wellington foi absolvido.

A defesa de Damaris sempre afirmou que ela apenas contou a Henrique que teria sido vítima de estupro por Daniel, e que o crime cometido por ele teria sido uma retaliação, incluindo a queima do corpo da vítima.

Durante o processo, a defesa solicitou diversas vezes a revogação da prisão preventiva, mas todos os pedidos foram negados pelo Ministério Público e pela Justiça, que consideraram insuficientes os documentos médicos apresentados sobre a saúde de Damaris. “Não há demonstração suficiente de a ré estar extremamente debilitada por motivo de doença grave, na medida em que os documentos médicos são meros receituários, sem apontar qualquer patologia existente e sem trazer exames e diagnósticos”, destacou a Justiça.

Damaris passou por penitenciárias em Sobradinho, Lajeado, Santa Maria e Rio Pardo. Somente em março de 2025 a prisão foi convertida em domiciliar devido ao diagnóstico de câncer e ao agravamento de seu estado de saúde. Na ocasião, foi instalado monitoramento eletrônico, e, em abril, a Justiça autorizou que ela permanecesse na casa da mãe, em Balneário Arroio do Silva (SC), usando tornozeleira.

“Fiz petições manifestando que ela estava tratando câncer e precisava transitar por hospitais. Ainda havia a oscilação do peso. Pedi remoção da tornozeleira, mas nenhum desses pedidos foi atendido. Ela foi submetida a raio-x, exames, tudo com tornozeleira”, relatou a advogada Rebeca Canabarro.

O julgamento de Damaris ocorreu apenas em agosto, quando o Conselho de Sentença a absolveu de todas as acusações, por negativa de autoria e falta de provas. Ela morreu pouco mais de dois meses depois, deixando um caso que reacende debates sobre a demora da Justiça e as condições de saúde de pessoas mantidas em prisão preventiva.