Goianésia- As músicas regionais carregam mais do que sons e melodias. Elas expressam modos de vida, crenças, tradições e a identidade cultural das cidades brasileiras. No entanto, a cada geração, essas manifestações enfrentam um cenário mais desafiador: o domínio das músicas comerciais e o consumo acelerado, que prioriza o que é rápido e descartável.
O professor de música Eduardo Makyiama avalia que a indústria fonográfica atual molda o gosto popular com foco no consumo imediato, o que dificulta a valorização de músicas tradicionais. “Eu, como músico, penso que aquela música tradicional, não sendo a música voltada para grande massa, que não é a música comercial, enfrenta uma grande barreira, porque hoje, culturalmente, o público não está acessível a essa música cultural, a essa música com arranjos mais complexos ou com letras mais complexas ou que têm uma qualidade maior de cultura”, explica Eduardo.
Outro fator que influencia diretamente a perda de espaço da música regional nas cidades brasileiras é o impacto de estilos e ritmos importados. As influências globais têm moldado o mercado fonográfico local, impondo tendências estrangeiras que muitas vezes se sobrepõem à produção cultural própria de cada região.
Para Eduardo, essa “internacionalização sonora” acaba gerando um desequilíbrio, onde os elementos culturais locais são ofuscados por fórmulas musicais de alcance global. “A grande massa hoje consome uma música totalmente comercializada, que seria a música que é feita hoje, lançada hoje, e daqui a um mês essa música já foi consumida pelo povo. São músicas de letras mais simples, com menos conteúdo, mas que falam de temas que estão em alta, desde balada, traição e outros temas também. E músicas construídas através de aspectos de arranjos mais tímidos, mais simples. Então, são músicas voltadas para ficarem mais ‘chicletes’ na cabeça do público, mas que ao mesmo tempo são músicas que passam mais rápido”, afirma.
A tecnologia e as redes sociais também desempenham um papel ambíguo nesse cenário. Se por um lado oferecem maior visibilidade para artistas independentes, por outro acabam priorizando o conteúdo viral e de curta duração, o que desfavorece produções mais elaboradas ou com forte ligação cultural.
“As redes sociais hoje são bombardeadas de grandes estratégias de marketing para ensinar mesmo essa música comercial. Não estou dizendo que a música comercial é música ruim, mas estou dizendo que ela não se compara a grandes clássicos, que não têm um foco maior em se propagar por mais tempo. Hoje o mundo gira em torno do consumismo, a música não é diferente. As músicas hoje são feitas pensando em curto espaço de tempo, e as redes sociais, a internet e a tecnologia propagam essas músicas através dos aplicativos, através de danças, através de coisas que viram, dentro do público, uma manchete, uma coisa que pega. Enfim, acaba que a música cultural, aquela música mais voltada para a cultura regional, nacional, mais voltada para letras mais bem elaboradas, digamos assim, acaba perdendo espaço”, avalia o professor.
De acordo com um levantamento da Fundação Nacional de Artes (Funarte), cerca de 60% dos músicos que atuam com repertório tradicional ou folclórico no Brasil afirmam ter dificuldade em alcançar o público jovem nas plataformas digitais. O dado reforça a preocupação de artistas e pesquisadores com o enfraquecimento das expressões culturais locais e acende o alerta para a necessidade de políticas de valorização e fomento à música regional como instrumento de preservação da identidade das cidades.




