Goianésia - O uso de celulares em sala de aula se consolidou como um dos maiores desafios da educação contemporânea. O excesso de estímulos, a fragmentação da atenção e a dificuldade de concentração estão entre as principais preocupações de educadores, que observam impactos diretos no desempenho e no envolvimento dos estudantes.
Para o professor Carlos Ambrósio, a presença constante do celular durante os momentos de aprendizagem tem comprometido seriamente a relação dos alunos com o conhecimento. “Eu acredito, e não é por saudosismo, mas por coerência com aquilo que a aprendizagem exige: perseverança e presença. O celular é uma ferramenta extraordinária, mas, dentro da sala de aula, ele se transforma em uma distração hipnótica. É como um buraco negro que suga o foco dos estudantes e os desconecta do que está diante deles”, afirma o professor.
A analogia usada por Ambrósio é simples, mas contundente: aprender é como construir uma casa. E, segundo ele, essa construção tem sido interrompida repetidamente por vídeos, notificações e mensagens. O cérebro do estudante, diz ele, passa a funcionar de forma dispersa, incapaz de sustentar o foco necessário para compreender e elaborar ideias com profundidade.
“Vamos pensar assim: aprender é igual construir uma casa. Mas imagina se, a cada cinco minutos, alguém para a obra para ver um vídeo ou responder uma mensagem. O que acontece? Um cérebro em modo zapping, pulando de um estímulo para outro, não consegue permanecer tempo suficiente para realmente aprender. Proibir o celular não é retroceder, é proteger o que está mais em risco hoje: a capacidade de estar inteiro”, explica.
Mesmo com a recente sanção da Lei nº 15.100/2025, que regulamenta o uso de telas em escolas de educação básica, o professor ressalta que o ideal seria não haver necessidade de proibição. No entanto, diante de um cenário marcado pelo uso excessivo e descontrolado de dispositivos móveis, ele considera a restrição uma medida de proteção — especialmente para alunos que ainda não desenvolveram a maturidade para o uso consciente da tecnologia.
“Vivemos em um país onde precisamos amarrar a caneta no balcão para que ela não seja levada. Isso diz muito sobre nossa maturidade social. Ainda não temos estrutura para confiar que o uso de telas será equilibrado por conta própria. O impacto da restrição já é visível: o engajamento começa a melhorar, principalmente no pós-pandemia”, pontua.
Em uma pesquisa informal realizada por Ambrósio com uma turma de 28 alunos, a média diária de uso do celular foi de cinco horas — com casos extremos chegando a doze. O professor destaca que, nesse ritmo, parte significativa da vida dos estudantes está sendo consumida por conteúdos imediatistas, que geram prazer rápido e dificultam o esforço intelectual. “As telas oferecem prazer instantâneo. O cérebro, condicionado a isso, começa a rejeitar qualquer atividade que exija esforço. É como cortar o açúcar de uma criança viciada em doce: ela vai reclamar, vai resistir, mas depois de um tempo percebe que existe vida além do açúcar — e muito mais nutritiva. Assim também é com o uso de telas”.




